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Super-Heróis da Vida Real

(Com a colaboração de Leonir Kobs) No dia 11/09/2001, uma tragédia surpreendeu o mundo. No Brasil, os jornais informaram que um avião tinha se chocado

(Com a colaboração de Leonir Kobs)

No dia 11/09/2001, uma tragédia surpreendeu o mundo. No Brasil, os jornais informaram que um avião tinha se chocado contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Manhattan, Nova Iorque. Quase 3 mil pessoas morreram, vítimas do terrorismo. Vinte anos depois, a ameaça continua:

Os programas de vigilância que o governo dos Estados Unidos utiliza […] evitaram mais de 50 ataques terroristas em 20 países após os atentados de 11 de setembro, […]. A revelação foi feita pelo diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA) […]. (TERRA, 2013)

O ataque terrorista mobilizou as artes. No entanto: “A primeira forma de arte que lidou com o tema – pelo menos dentro da indústria cultural, […] – foram os quadrinhos” (ANDREOTTI, 2013). Trata-se do “número 36 do segundo volume de Amazing Spider-Man […]” (ANDREOTTI, 2013) (Fig. 1).

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Super-Heróis da Vida Real
Figura 1: HQ do Homem-Aranha sobre 11/09/2001.
Fonte: https://www.hq-now.com/hq/2715/homem-aranha-11-de-setembro

As sucessivas retomadas tentam entender o que houve, afinal: “Narrar o trauma […] tem em primeiro lugar este sentido primário de desejo de renascer” (SELIGMANN, 2008, p. 66). Portanto, esse processo indica luto e superação.

CARTÃO AMAZON

A edição especial da HQ do Homem-Aranha usa o preto — na capa (Fig. 1), na contracapa e na primeira página (Fig. 2).

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Figura 2: Início da HQ. Fonte:
https://bloginterocitro.files.wordpress.com/2014/09/10599453_854770394547821_5013536569239622497_n.jpg

O início da história chama o plantão de notícias, dando as coordenadas exatas do World Trade Center. As sirenes também fornecem pistas da dimensão da tragédia. Quando o protagonista aparece, as pessoas perguntam onde ele estava (Fig. 3).

Figura 3: A chegada do Homem-Aranha. Fonte: https://critical-room.com/2021/09/11/11-de-setembro-o-momento-mais-humano-dos-herois/

Os sentidos de aranha não o ajudaram e isso inverte o estereótipo do herói, que deve ser “o generoso defensor da verdade e da justiça, […] a serviço daqueles que não podem defender a si mesmos” (RANDAZZO, 1997, p. 163). Além disso, “super-heróis possuem poderes […] além da capacidade dos mortais […] vencendo o mal com a força do bem” (IRWIN, 2005, p. 24). Entretanto, o herói torna-se mero espectador (Fig. 4) e pessoas comuns tornam-se heróis.

Figura 4: O herói assistindo ao caos. Fonte: https://cursandohistoria.files.wordpress.com/2014/09/03.jpg?w=800&h=1280&crop=1

O personagem chama aliados (Fig. 5) e inimigos (Fig. 6), mas a inevitabilidade os obriga a questionar seus poderes.

Figura 5: Capitão América assiste ao desastre.
Fonte: https://quadrinheiros.com/2013/09/11/o-homem-aranha-e-o-11-de-setembro/

Entretanto, o Capitão América simboliza resistência, mesmo em uma pátria devastada. 

[…] após o bombardeio japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, Superman e seus seguidores passaram […] a posar em frente à bandeira americana. Nasceu também, naquele mesmo ano, […] o Capitão América.

[…]

Quando a guerra acabou, o que sobrou foi um mundo a reconstruir. (NOGUEIRA, 2013)

Na horda dos vilões (Fig. 6), estão: Doutor Destino (Quarteto Fantástico); Magneto e Fanático (X-Men); Wilson Fisk (Demolidor e Homem-Aranha); e Doutor Octopus (Homem-Aranha). 

Figura 6: Em primeiro plano, Doutor Destino, Wilson Fisk e Magneto; ao fundo,  Fanático e Octopus. Fonte: https://bloginterocitro.files.wordpress.com/2014/09/10671251_854772901214237_1885914769584430297_n.jpg

A chegada dos vilões acentua a desaprovação daqueles que também mostram um lado humano e isso se alinha à inversão do status dos super-heróis, como atestam Deadpoll e Hancock.

Na edição especial da HQ, os homens comuns assumem a luta (Fig. 7).

Figura 7: Destaque aos verdadeiros super-heróis. Fonte:
https://bloginterocitro.files.wordpress.com/2014/09/10687152_854774901214037_3490783231716846170_n.jpg

Os heróis de antes ficam atrás dos bombeiros, enfermeiros, médicos, policiais, militares, entre outros, e esse grande feito repercutiu nas mídias:

A editora independente Alternative Comics ganhou mais notoriedade no mercado ao publicar 9-11 Emergency Relief, com 208 páginas […] nas quais 80 artistas […]  narravam o heroísmo de bombeiros e policiais que trabalharam no resgate de corpos e de sobreviventes daquela tragédia. (RAMONE, 2015)

Essa perspectiva valoriza os princípios da Escola dos Annales, que pregava a “escrita de uma história das sensibilidades” (DUBY, 1992, p. 79) e discutia a espetacularização dos grandes feitos. “Nessa nova configuração […], o historiador perde sua batuta […] para tornar-se um mineiro que traz os materiais a serem estudados pelas outras ciências sociais” (DOSSE, 2003, p. 373).

Um dia após o ataque, uma HQ do Super-Homem foi lançada, com imagens similares às cenas da tragédia (Fig. 8):

A história […] se passa logo após a saga Our Worlds At War […]. Logo nas segunda e terceira páginas, é mostrado um grande desenho do prédio de Lex Luthor, idêntico às Torres Gêmeas de Nova York, destruído por causa da guerra, […]. (CODESPOTI, 2001)

Figura 8: Detalhe da HQ The Adventures of Superman #596 (12/09/2001). Fonte: https://universohq.com/materias/coincidencia-entre-atentado-nos-eua-e-revista-do-super-homem-chama-a-atencao/

Comentando a coincidência, o desenhista afirmou: “[…] essa revista foi produzida meses atrás, e, pessoalmente, imaginei que uma tragédia como aquela do dia 11 poderia acontecer, mas nunca pensei que iria acontecer” (CODESPOTI, 2001, grifo no original).

Um ano depois, o artista Alex Ross participou da coletânea 9-11, lançada pela DC. Na ocasião, o destaque foi o cartaz “Superman and the heroes of September 11”, criado em 2001, após a tragédia (Fig. 9):

Figura 9: Ross homenageia os heróis de 11/09/2001. Fonte: https://www.loc.gov/resource/ppmsca.02028/

Nessa imagem, Superman e o cachorro Krypto reverenciam heróis comuns. O cartaz objetiva o enaltecimento, usando o “formato oblongo”, que, “combinado com uma perspectiva de um ponto de vista baixo, evoca uma sensação de ameaça” (EISNER, 2010, p. 90). Assim, os heróis comuns parecem maiores, pois o “plano contrapicado”, dá “impressão de superioridade […], porque engrandece os indivíduos” (MARTIN, 2003, p. 51, grifo no original).

No entanto, o desenho de Ross é resultado de outra paródia, porque retoma uma capa de 1944 (Fig. 10):

Figura 10: The Big All-American (1944). Fonte: https://www.amazon.com.br/Big-All-American-Comic-Book-English-ebook/dp/B073HNX7WY

No desenho original, um garoto e seu cão observavam os super-heróis.     Dessa forma, a paródia descaracteriza a suprarrealidade, principal atributo das HQs, empoderando os cidadãos comuns. Consequentemente, os heróis clássicos, avessos aos “aspectos comuns da existência”, são tirados “de seus horizontes habituais” (DUPLESSIS, 1963, p. 28).

Em 2001, os heróis foram pessoas comuns, sem superpoderes, mas que conseguiram salvar vidas, confortar e acreditar em dias melhores. Dessa forma, naquele fatídico dia, o mundo descobriu que essa profundidade emocional faz parte do choque, do improviso e das surpresas – boas e más – que a vida reserva.

Texto originalmente publicado no blog Interartes: Artes & Mídias, em set. 2022.

REFERÊNCIAS:

ANDREOTTI, B. O Homem-Aranha e o 11 de setembro. Disponível em: <https://quadrinheiros.com/2013/09/11/o-homem-aranha-e-o-11-de-setembro/>. Acesso em: 17 ago. 2013.

CODESPOTI, S. Coincidência entre atentado nos EUA e revista do Super-Homem chama a atenção. Disponível em:

<https://universohq.com/materias/coincidencia-entre-atentado-nos-eua-e-revista-do-super-homem-chama-a-atencao/>. Acesso em: 15 dez. 2001.

DOSSE, F. A História em migalhas. Bauru: EDUSC, 2003.

DUBY, G. A História continua. Porto: Asa, 1992.

DUPLESSIS, Y. O surrealismo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1963.

EISNER, W. Quadrinhos e arte sequencial. São Paulo: WMF Martins, 2010.

IRWIN, W. Super-heróis e a filosofia. São Paulo: Madras, 2009.

LE GOFF, J. Prefácio à nova edição. In: _____; CHARTIER, R.; REVEL, J. (Org.). A História nova. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 6-14.

MARTIN, M. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2003.

NOGUEIRA, S. Como os super-heróis nasceram. Disponível em: <https://super.abril.com.br/cultura/como-os-super-herois-nasceram/>. Acesso em: 24 ago. 2013.

RAMONE, M. 11 de setembro. Disponível em: <https://universohq.com/universo-paralelo/11-de-setembro-o-dia-em-que-os-super-herois-falharam/>. Acesso em: 17 out. 2015.

RANDAZZO, S. A criação de mitos na publicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

SELIGMANN-SILVA, M. Narrar o trauma. Psicologia clínica, v. 20, n. 1, Rio de Janeiro, 2008, p. 65-82.

TERRA. NSA. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/mundo/estados-unidos/nsa-eua-evitaram-mais-de-50-ataques-terroristas-apos-11-de-setembro,75cb30b5c455f310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html>. Acesso em: 14 set. 2013.

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