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A cepa, o fruto e o sangue

As raízes da mangueira desciam à fossa. O fruto disputado pelos colegiais na parte do dia e pelos morcegos na parte da noite não denunciava

As raízes da mangueira desciam à fossa. O fruto disputado pelos colegiais na parte do dia e pelos morcegos na parte da noite não denunciava a fonte do viço: os nossos excrementos. A tampa junto à parede, os baldes repletos da matéria fétida, a enxada enegrecida de fezes. Despejávamos todo material em um bueiro da esquina, víamos os pequenos animais mortos saídos de nossas entranhas mergulharem em um abismo definitivo. A limpeza durava pouco mais de uma hora, o banheiro interditado constrangia e um latão substituía a latrina.

Durante a retirada da sujeira, via-se os colegiais comendo as mangas sentados ao meio-fio, com os fios dourados presos aos dentes, o caldo escorrendo das mãos e uma alegria inexcedível diante das promessas do mundo. O nível da fossa baixava bastante, as raízes se reuniam em um dos cantos, tínhamos decidido cortá-las, o machado fora amolado no dia anterior, o cimento, a areia e as pedras para reparo da caixa tinham sido comprados e tudo corria bem. O amontoado das raízes em um dos ângulos tinha um curioso formato de casulo.


CLIQUE NA IMAGEM ABAIXO PARA PARTICIPAR DA EDIÇÃO EDGAR ALLAN POE DA REVISTA RECORTE LÍRICO:

A cepa, o fruto e o sangue

Outros afazeres desviaram minha atenção do emaranhado vegetal. Meu pai virava a massa para o reparo, ordenava a limpeza do material desnecessário, vigiava o meu manejo do machado no corte do longo fio da raiz. Erguido pela cavadeira, acionei o  tesourão nas ramificações fincadas à terra: um dos longos dedos da árvore tinha sido amputado. E na ponta dele, o tumor ainda é impenetrável. Meu pai sorriu quando viu parte do trabalho realizado. Apontou o abscesso, falou do melhor modo de rompimento, tomou o machado, a pedra de amolar, afiou a ferramenta.

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Separei o nódulo do dedo morto, a chave de fenda o soltava da parede da fossa, com lentidão, permitindo entrever na bolsa um braço de bebê. Segui a exploração com asco, o corpo macio se desfazia, liberto da câmara de proteção, saltaram, por último, as pernas e a cabeça. A  falta de um dos membros superiores denunciava a má formação da criança. Desenrolou-se um drama dentro de mim: o rejeito de uma mãe adotado pela natureza sem direito à ressurreição. Meu pai diz: – Saia. Jogue isso fora! Em minha cabeça, ainda era um corpo.

Mais tarde, realizei o funeral em um dos canteiros. A velha mangueira parecia triste sem o rebento, as mangas não atraíam mais os colegiais, os morcegos não apareciam com a mesma frequência e a árvore assumiu uma decrepitude espantosa.  As mães sentem falta dos filhos, sem eles definham e morrem. Não foi diferente. Desaparecemos os dois do futuro.

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