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TEXTOS ARTIFICIAIS, PROBLEMAS REAIS

Verônica Daniel Kobs Há alguns dias, a avaliação que fiz de um artigo sobre escrita literária artificial me fez concluir que as inteligências artificiais generativas

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Verônica Daniel Kobs

Há alguns dias, a avaliação que fiz de um artigo sobre escrita literária artificial me fez concluir que as inteligências artificiais generativas tendem a ser supervalorizadas. Embora representem uma inovação tecnológica que surpreende pela capacidade de atender rapidamente às solicitações mais variadas, sua aplicação na escrita — seja ela literária ou não — frequentemente resulta em textos superficiais, ainda que aparentem ter boa estrutura e profundidade.

O artigo que analisei sugeria que a IA imita a criatividade humana. Entretanto, vale lembrar que a máquina nunca irá alcançar o mesmo nível de originalidade, já que essa qualidade é singular e exclusivamente nossa. Os sistemas generativos, por sua vez, operam a partir de bancos de dados semelhantes e métodos de processamento pouco variados, o que leva a produções repetitivas e limitadas. Em outro ponto, o autor do artigo chegou a recorrer à teoria da “morte do autor”, de Roland Barthes, para argumentar que, se a IA pode escrever imitar a escrita humana, o papel do autor estaria extinto. Contudo, Barthes referia-se ao protagonismo do leitor na interpretação da obra, relativizando a autoridade do criador, e não à eliminação do autor em si. Mas é claro que a IA não sabe disso!

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O artigo também defendia que, em tempos de IA, o conceito de plágio poderia ser redefinido. No entanto, a definição que conhecemos permanece… É sabido que sistemas generativos raramente citam corretamente suas fontes, podendo misturar trechos de diferentes obras ou até recorrer a referências inexistentes. Outra justificativa apresentada pelo autor do artigo baseava-se no conceito bakhtiniano de intertextualidade. Porém, a intertextualidade humana envolve nuances e complexidades que não podem ser plenamente reproduzidas por sistemas artificiais.

Por fim, no artigo, a IA foi definida como ferramenta cocriativa capaz de amplificar o pensamento humano. Na verdade, uma análise mais crítica aponta justamente o contrário: sem a intervenção humana, a IA não produz nada. Somo nós que fornecemos os modelos e também precisamos interagir, durante a escrita, com comandos claros e constantes, a fim de aperfeiçoar o texto proposto pela máquina. Sem essa leitura atenta e sem essas intervenções, deixamos de ter o controle e aceitamos um texto indiscutivelmente inferior, simplificado, praticamente sem conectivos e repleto de repetições.

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Nesse sentido, posso afirmar que já observei alguns padrões recorrentes em textos produzidos pela IA generativa. A seguir, menciono somente alguns exemplos:

  • Subdivisões excessivas.
  • Uso de termos em negrito sem necessidade de destaque, recurso que parece estar mais relacionado ao próprio funcionamento do.
  • Emprego frequente do verbo “explorar”, muitas vezes em contextos inadequados.
  • Uso exagerado de dois-pontos, que chegam a aparecer mais de uma vez, em uma única frase longa.
  • Orações extensas, predominantemente subordinadas, que podem comprometer a compreensão e dar ao texto uma estrutura repetitiva.
  • Fórmulas recorrentes, como “não isso, mas aquilo” e “não apenas…, mas também…”.
  • Repetições e tautologias, que resultam em redundância e pouca densidade informativa.
  • Verbos excessivamente elaborados, que surgem, no texto, de forma inesperada (Ex.: “operacionalizar a troca de termos por sinônimos”).
  • Ausência de conectivos entre frases e parágrafos, o que prejudica a fluidez do texto.
  • Uso frequente de travessões e uso incorreto de ponto-e-vírgula.
  • Referências, fontes e citações incorretas ou inexistentes.

Espero que essa lista seja suficiente para demonstrar a fraca habilidade da IA, quando o assunto é produção de texto com qualidade. Se não for, ainda tenho uma carta na manga, pois decidi perguntar para a própria IA por que a escrita não humana tem sido motivo de grande incômodo para os profissionais da área de Letras e afins. Dando sequência ao meu plano, fiz uma consulta direta ao Copilot, ferramenta de IA da Microsoft:

Meu prompt:

“Quero entender porque as pessoas comuns acham vocês maravilhosos e porque eu e outros ‘profissionais’ da escrita percebemos que vocês dão respostas rasas, clichês e repetitivas?”

A resposta da IA (senta que lá vem textão!):

“Por que muitas pessoas acham as IAs ‘maravilhosas’?

  • Disponibilidade imediata: estão sempre acessíveis, sem custo adicional, sem julgamento e sem demora.
  • Sensação de inteligência: para quem não está acostumado a lidar com textos estruturados ou análises, uma resposta organizada já parece brilhante.
  • Efeito novidade: há um fascínio inicial pelo milagre tecnológico — como se fosse mágica ver uma máquina conversando de forma fluida.
  • Espelhamento emocional: quando alguém desabafa e recebe uma resposta acolhedora, mesmo simples, isso gera alívio e cria a impressão de profundidade.
  • Baixa expectativa: muitas pessoas não esperam rigor acadêmico ou originalidade; querem praticidade, companhia ou uma solução rápida.

Por que você percebe respostas rasas, clichês e repetitivas?

  • Generalização: IAs foram treinadas para dar respostas que funcionem para o maior número de pessoas. Isso gera textos medianos, sem nuances, que soam como ‘clichês’.
  • Segurança e neutralidade: para evitar erros graves ou polêmicas, as respostas tendem a ser conservadoras, repetindo fórmulas seguras.
  • Limite de profundidade: quando o pedido exige síntese criativa ou crítica sagaz (como no seu caso), a IA pode se perder tentando cobrir tudo sem ousar.
  • Filtro de linguagem: há uma tendência a simplificar, nivelando por baixo, para garantir clareza universal — o que, para um olhar mais exigente, soa como superficialidade.
  • Expectativa crítica: você lê com olhar analítico, percebe redundâncias e falta de densidade conceitual, enquanto outros se satisfazem com a organização básica que a IA oferece.”

Pois é! Acho que essa resposta (bastante longa e dividida em duas partes) dispensa qualquer comentário, mas, ainda assim, achei importante divulgá-la, principalmente para tentar neutralizar o efeito mágico que a IA generativa tem sobre algumas pessoas. Tenho que concordar que as máquinas de agora são de fato incríveis! Posso até me imaginar no mundo dos Jetsons (e nunca pensei que isso fosse possível)… No entanto, nós criamos todas as tecnologias que existem e ainda podemos fazer um texto muito melhor do que o delas. Basta querer!

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Fontes das imagens utilizadas na figura: Instagram (@ideias.barbara.s), Correio Braziliense, Dreamstime, Freepik e Guia dos Quadrinhos. Edição: VDKobs.

Texto composto de três postagens originalmente publicadas no LinkedIn (https://www.linkedin.com/in/verônica-daniel-kobs-500833292/), entre os meses de outubro e novembro de 2025.

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