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A superficialidade convencedora de comentários de escritores famosos em outras obras

Hoje em dia é muito raro encontrarmos livros sem comentários de algum outro escritor acerca da obra estampados logo na capa. É claro que esses

Hoje em dia é muito raro encontrarmos livros sem comentários de algum outro escritor acerca da obra estampados logo na capa. É claro que esses comentários precisam ser elogios, precisam necessariamente estar falando bem da obra e recomendando-a. Já pensou como deve ser interessante para uma editora ir atrás de um escritor extremamente famoso e pedir pelo comentário dele?
Se você é um leitor que possui um gênero literário preferido, provavelmente você já se deparou com o comentário de um autor muito famoso que você conhece e, que escreve aquele tipo de gênero, em algum outro livro com o mesmo gênero. Isso faz muito sentido, afinal, se eu vou publicar um livro de ficção fantástica, é óbvio que eu (editor de livros) preciso de um comentário de um autor muito famoso que também escreva ficção fantástica, dessa forma, os leitores que gostam das obras dele irão possivelmente levar o comentário e a recomendação dele a sério, garantindo que o livro seja comprado.
 

(Foto: Sara Muniz/Acervo Pessoal)

Ainda utilizando a ficção fantástica como exemplo, acredito que atualmente os “maiores comentadores” (vulgo mais famosos) de livros de fantasia são George R. R. Martin, Brandon Sanderson e, até mesmo, Neil Gaiman. A razão é bastante simples: eles são os escritores desse gênero que mais fazem sucesso na atualidade, logo, a opinião e as escolhas de leituras deles tem grandessíssimo valor para os seus leitores.
A questão primordial é a que você pode estar sendo enganado pelo seu escritor favorito, que faz um comentário positivo sobre o livro, mas muitas vezes nem o leu e fez isso só pelo dinheiro. Há um episódio de Os Simpsons em que Marge Simpson publica um romance de época que faz um sucesso absurdo, e então passa uma cena em que a editora do livro está falando com outros escritores pelo telefone e cada um deles faz seu comentário positivo sobre a obra sem ao menos ter lido.
“Trama envolvente e personagens apaixonantes! Se você gosta de um bom romance, mas quer algo que supere suas expectativas, recomendo muito a leitura desta obra, é perfeita para você.”
Escrevi a frase acima em menos de 1 minuto, para demonstrar como é simples e fácil fazer um comentário superficial apenas lendo a sinopse de um livro. Mas, peguemos comentários em livros já publicados:
“Harlan Coben é mestre em prender a atenção do leitor e criar histórias surpreendentes.” Ele vai seduzir você na primeira página apenas para chocá-lo na última”. – Comentário de Dan Brown (autor de O Código da Vinci) sobre o livro Confie em Mim, de Harlan Coben.
“Uma história comovente, que vai fazer você querer abraçar bem forte o protagonista.” – Comentário de Holly Goldberg Sloan (autora de best-sellers do The New York Times que ainda não é publicada no Brasil) sobre o livro A mais pura verdade, de Dan Gemeinhart.
Se você observar com um olhar crítico, ambos os comentários acima são extremamente superficiais e, pensando sobre a ideia de que os autores podem não ter lido os livros que comentaram, parece muito que esses autores não leram, de fato, as obras (no máximo a sinopse). Parando para comparar com o meu comentário inventado, ele está até muito mais elaborado do que os utilizados nas capas dos livros analisados.
Entretanto, para não desconsiderar autores que realmente leem o livro antes de comentar, eis os comentários da contracapa de Coraline, de Neil Gaiman:
“Senhoras e senhores, meninos e meninas, levantem-se para aplaudir: Coraline é o que há.” – Philip Pullman, autor de Fronteiras do mundo.
Como assim, “é o que há”? Enfim… vamos para o próximo:
“Este livro conta uma história fascinante e perturbadora que quase me matou de susto. A menos que você queira se esconder debaixo de sua cama, com o dedo na boca, tremendo de medo e fazendo toda a espécie de sons estranhos, sugiro que largue o livro devagarinho e vá procurar uma diversão mais leve, algo assim como um crime sem solução, por desvendar.” – Lemony Snicket, autor de Desventuras em Série.
Dê uma boa olhada para o segundo comentário, eis aqui uma excelente demonstração de envolvimento real do autor com a obra, se ele não leu, ele conversou muito com alguém que já havia lido e gostava da história. Ou seja, nem todos os autores leem, mas também nem todos deixam de ler os livros que comentam. Para nós, leitores, o maior problema é que podemos estar sendo enganados ao acreditar nessas recomendações que são uma técnica bastante recente das editoras, uma vez que raramente se vê esse tipo de comentário em clássicos da literatura. Por isso, vale a pena refletir sobre a possibilidade de opiniões falsas antes de se deixar influenciar pela recomendação de um escritor que você gosta muito.
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