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O Florescimento da Ecocrítica na Poesia

Nos haicais de Sigrid Renaux, prevalece a estrutura de 3-4 versos – brancos e livres −, que integram um tópico frasal. Em raras exceções, os

Nos haicais de Sigrid Renaux, prevalece a estrutura de 3-4 versos – brancos e livres −, que integram um tópico frasal. Em raras exceções, os poemas são compostos de 5-6 e até 2 versos. Essas características adaptam o formato tradicional. No entanto, é mantida a ideia de, pela literatura, sobrepor plantas, animais e minerais ao homem, para mostrar outro mundo, quase sempre não percebido pelos humanos (Fig. 1):

O Florescimento da Ecocrítica na Poesia
Figura 1: Versos em desalinho (RENAUX, 2019, p. 29)

Como se vê, a autora apresenta os versos em margens desalinhadas, provocando uma ondulação. Essa sinuosidade faz parte da estética e objetiva “apresentar visualmente um poema” (RENAUX, 2022). Além disso, os recuos rompem com a estrutura linear, propondo um novo fluxo, mais adequado à reinserção do leitor no ambiente natural, do qual ele faz parte, mas que costuma ver de modo restrito. Quanto ao conteúdo, o poema subverte princípios, ao estabelecer uma nova ordem, na qual as raízes não são base apenas para as plantas, mas também para o solo.

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Ainda quanto à estrutura, os versos muito curtos e distribuídos de modo irregular, inserem pausas que transformam cada verso em uma espécie de frame. Dessa forma, embora haja certa propensão à fragmentação, os versos se somam, compondo um flagrante de paisagem natural. Assim, cada parte retém a atenção do leitor por um instante significativo. Esse recurso consolida o teor imagético, como afirma a própria autora:

Como eu era leitora (voraz) de livros, acho que fui influenciada [...] tanto por poetas nacionais como estrangeiros, pois o que mais me fascinava eram as imagens que eles apresentavam em seus poemas. (RENAUX, 2022)

Em outro poema, a estrutura fragmentada novamente cria nichos, permitindo que cada planta seja apresentada isoladamente, em um verso distinto: “primavera de ipês lilases e amarelos / de agapantos brancos e azuis / germinando / fugazes / sob as bougainvilleas” (RENAUX, 2011, s.p.). Nos cinco versos, três tipos de plantas são apresentados: ipês (Handroanthus) (Fig. 2), agapantos (Agapanthus africanus) e bougainvilleas (Bougainvillea, da mesma classe das magnólias – Magnoliopsida). Em uma única sequência, há três cenas e três plantas protagonistas, em razão do cromatismo e da estrutura em frames. Dessa forma, ipês e agapantos colorem a página.

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Figura 2: Periquito-rico (Brotogeris tirica) no ipê amarelo (Handroanthus).
Crédito da foto: Leonir Kobs

Orientando o público para um tipo de percepção mais contemplativa, a autora propõe o que Evando Nascimento denomina de “experiência vegetal” (MANCUSO; NASCIMENTO; AGUSTONI, 2021), que, de acordo com o crítico, sempre fez parte das preocupações da literatura, da arte em geral e da filosofia:

A teoria e a crítica literária demoraram muito tempo para descobrir aquilo que os escritores já fazem desde a Grécia Antiga. Os escritores e oradores indígenas fazem desde sempre. Os orientais fazem desde sempre. E essa interlocução vegetal [...] remonta às origens do humano. Isso não tem nada de novo. (MANCUSO; NASCIMENTO; AGUSTONI, 2021)
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O que mudou então? Com a ecologia e com a crescente destruição da natureza, o tema tornou-se emergencial, fazendo com que fosse dado mais destaque a tudo o que questiona e problematiza a importância da natureza e as fronteiras entre os seres, as quais, segundo a ecocrítica, nem deveriam existir. No início da pandemia de covid-19, a venda de plantas caiu, por causa da proibição de aglomerações em eventos. Segundo Renato Opitz, diretor do Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura), o setor teve “perdas de 90%”, mas, depois, as pessoas “perceberam que, […] tendo flores e plantas […], você torna o seu ambiente bem mais alegre, mais harmonioso, mais vivo” (GLOBO, 2021). Diante dessa mudança de comportamento, ao final do primeiro ano de pandemia, o setor de flores e plantas se recuperou e “fechou 2020 com crescimento de 10% garantido pelas vendas de plantas ornamentais e flores em vasos” (GLOBO, 2021).

Em 2021, esse índice dobrou, com bons prognósticos para 2022. Além disso, conforme notícia publicada no site G1, da Rede Globo: “O curso de hortas em pequenos espaços da Embrapa, que passou a ser online, costumava ter 600 inscritos por ano. Em nove meses, recebeu 80 mil inscrições de todo Brasil” (GLOBO, 2021). Dessa forma, a difícil experiência do isolamento social contribuiu para a consolidação de um dos princípios da ecocrítica, que exige “uma mudança fundamental de um contexto de leitura para outro – mais especificamente, um movimento do humano para o ambiental […]” (KERN, 2000, p. 18, tradução nossa).

Nesse sentido, o esforço dos autores que tentam contemplar os princípios da ecocrítica é descentralizar, para conscientizar o leitor de que o homem é apenas parte de um sistema infinitamente maior: “Os animais, todos juntos, não só nós, homens… Todos os animais juntos representam apenas 0,3% da biomassa do planeta. […]. As plantas representam 86% da vida” (MANCUSO; NASCIMENTO; AGUSTONI, 2021). Sendo assim, os poemas de Sigrid Renaux reafirmam a importância de vegetais e árvores frutíferas (Figs. 3 e 4), apresentando-os por meio das palavras, em um processo ecfrástico: “cerrando o horizonte / um outono ruivo pousou / nas folhas do caquizeiro / luminoso e doce” (RENAUX, 2019, p. 48); “amarelos entre verdes / pressentimentos de outono / tocam as folhas do castanheiro” (RENAUX, 2011, s.p.). Nesses dois poemas, a estação descrita é o outono, cujas tonalidades são utilizadas para potencializar o cromatismo. No primeiro caso, o adjetivo “ruivo”, associado ao fruto alaranjado do caquizeiro (Diospyros kaki), sugere uma cena monocromática, considerando o aspecto sazonal. Frutos e folhas igualam-se, confundindo-se na paisagem. No segundo poema, ocorre a mesma similaridade tonal, já que o outono torna as folhas do castanheiro (Castanea sativa) amareladas, diminuindo o contraste em relação à cor dos frutos e produzindo uma cena que combina os tons amarelo e marrom, do mesmo matiz.

Figura 3: Sanhaço-papa-laranja (Rauenia bonariensis) e canário-da-terra (Sicalis flaveola) na mimoseira (Citru nobilis). Crédito da foto: Verônica Daniel Kobs, com edição de Leonir Kobs
Figura 4: Sanhaço-papa-laranja (Rauenia bonariensis) na ameixeira-amarela (Eriobotrya japônica). Crédito da foto: Leonir Kobs

Mantendo o cromatismo, mas variando as estações, leiam-se estes versos: “captar / num poema / o estranho azul-luz das hortênsias / matizando o amanhecer” (RENAUX, 2011, s.p.); “entre campânulas azuis e lilases / inebriadas de sol / florescem as gotas de orvalho” (RENAUX, 2011, s.p.). Nestes exemplos, percebem-se as influências da primavera e do verão, pois as hortênsias (Hydrangea macrophylla) e as campânulas (Campanula persicifolia) florescem nesse período intersazonal. No entanto, em meio a um dia atribulado, nós, leitores, nem sequer nos damos conta disso…

Excerto do artigo “Versos florais de Sigrid Renaux”, de Verônica Daniel Kobs, publicado na Revista Cerrados (UnB), v. 31, n. 60, dez. 2022, p. 103-113.

REFERÊNCIAS:

GLOBO. Pandemia faz a venda de plantas e flores aumentar em todo país. 20 jan. 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/01/29/pandemia-faz-a-venda-de-plantas-e-flores-aumentar-em-todo-pais.ghtml>. Acesso em: 15 abr. 2022.

KERN, Robert. Ecocriticism: What Is It Good For? Interdisciplinary Studies in Literature and Environment, v. 7, n. 1, p. 9-32, 2000.

MANCUSO, Stefano; NASCIMENTO, Evando; AGUSTONI, Prisca. Literatura e plantas. 27 nov. 2021. Disponível em: <https://flip.org.br/2021/principal/programacao/?cat=37>. Acesso em: 15 abr. 2022.

RENAUX, Sigrid. De sons e silêncios. Ponta Grossa: Toda Palavra, 2011.

_____. Luzes na selva. Curitiba: Appris, 2019.

_____. [Sem título]. Comunicação via e-mail entre Sigrid Renaux e Verônica Daniel Kobs, no período de 11 a 15 fev. 2022.

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