Verônica Daniel Kobs
A série americana Santa Clarita Diet, produzida pela Netflix e dirigida por Victor Fresco, foi lançada em 2017. O nome é uma alusão à cidade de Santa Clarita, na Califórnia, e esse detalhe é responsável por um importante diferencial, já que, na história, Sheila (Drew Barrymore) é uma zumbi, moradora do subúrbio, casada e mãe. À primeira vista, a personagem leva uma vida normal e o cenário citadino ajuda a disfarçar o fato de Sheila ter se tornado uma morta-viva. Aliado a isso, ela ainda é humana na aparência, anda e fala com destreza e consegue refrear seus instintos, agindo às escondidas e mantendo um estoque de sangue, vísceras e carne humana no porão de casa.
Todos esses eufemismos em relação ao zumbi clássico justificam o uso do adjetivo diet no título, consolidando a remidiação. Nesse sentido, a humanidade de Sheila possibilita intensa mudança, para suavizar a monstruosidade da protagonista, em vez de potencializá-la. Trata-se de uma espécie de paródia às avessas, que tem o propósito de explorar com mais profundidade a insegurança que paira sobre Santa Clarita. Seguindo a ideia do disfarce, os cartazes de divulgação da série investiram na duplicidade, apresentando partes do corpo humano como iguarias gastronômicas. O prato conhecido como noodle soop, da culinária chinesa, é feito de glóbulos oculares. A tradicional fast food também não fica de fora: as batatas fritas são dedos e o sanduíche substitui o famoso hambúrguer por um coração humano ainda sangrando.
Esse jogo de sobreposições caracteriza o mashup, lembrando que essa estratégia estética valoriza a cultura de massa contemporânea, promovendo a fusão de códigos, gêneros e referências. Santa Clarita Diet é uma imensa colagem, que revisita e reordena as principais produções que, ao longo de décadas, representaram os zumbis e o apocalipse sob perspectivas distintas. Sendo assim, ao combinar elementos do terror — representados pelo canibalismo zumbi — com a leveza cômica de uma sitcom, a série consolida o híbrido em mais uma instância, por meio de uma ação simultânea, já que dialoga com os clichês do horror, subvertendo-os, a fim de se adaptar às demandas do público, afeito ao consumo e à fragmentação narrativa.
Outro fator que faz com que o mashup seja ainda mais realçado pelo uso de pratos da gastronomia mundial, nos cartazes de divulgação da série, é o enorme sucesso dos programas culinários na atualidade. Esse tipo de atração, em evidência na TV aberta, na TV a cabo e no streaming, transforma o ato de cozinhar em espetáculo midiático. Dessa maneira, ao representar partes do corpo humano como iguarias apreciadas pelos zumbis, a campanha publicitária ganha em ironia e criticidade (Figs. 1 e 2). Em outras palavras, adotando a lógica da cultura midiática, é como se qualquer conteúdo — inclusive o monstruoso — pudesse ser transformado em mercadoria simbólica, servida ao espectador na embalagem sedutora de um entretenimento gourmet.


Outro ponto fundamental é o diálogo entre o material publicitário e os episódios da série. Ambos investem na estratégia visual de transformar algo grotesco em comidas de consumo diário, obedecendo àquele equilíbrio que Noel Carroll considera necessário às narrativas de terror e horror. Por um lado, Sheila é normal na aparência, o que potencializa o terror, já que há mais chances de ela se aproximar de suas vítimas, sem ser notada. Entretanto, essa atmosfera é atenuada pelas situações engraçadas, como, por exemplo, o fato de Sheila levar dedos humanos em um saquinho, caso sinta fome, durante o trabalho. Devido a esse cruzamento, Santa Clarita Diet pode ser classificada como uma “‘zombédia’ (a comédia zumbi)” (Superinteressante 2012). Nem mesmo o mundialmente famoso McLanche Feliz foi poupado nas analogias usadas para promover a série (Fig. 3):

Tanto a aparência de Sheila quanto o lado humorístico da série remidiam os filmes de terror com protagonistas zumbis, gênero do qual George Romero é o maior representante. Embora, quase sempre, o texto literário seja anterior ao fílmico, no caso dos zumbis essa ordem foi invertida: “[…] os zumbis passaram de modo quase direto do folclore para as telas do cinema, sem antes terem vivenciado […] uma fase literária” (Superinteressante 2012). Dessa forma, nos clássicos de Romero, os zumbis são putrefatos, tem a pele carcomida e esverdeada, são catatônicos, agem por instinto e se comunicam por grunhidos. No entanto, Sheila é uma zumbi loira, de aparência sadia e desenvolta em todos os sentidos (Fig. 4). Ela diz ao marido que, em sua nova vida, não lhe falta energia e duas horas de sono por dia já são suficientes. Isso lhe dá mais tempo para seus afazeres (Santa Clarita Diet, 2017).

Esse contraste evidencia uma clara mudança estética, além de realçar a ressignificação simbólica da própria figura do zumbi na cultura contemporânea. Enquanto, nas produções de Romero, o monstro funciona como metáfora para o colapso social e a desumanização coletiva, em Santa Clarita Diet o personagem apresenta mais semelhança com os humanos do que com os mortos-vivos. Por isso, na série dirigida por Victor Fresco, o zumbi é realocado no contexto da vida suburbana, assumindo traços de normalidade e até de empatia. A monstruosidade cede espaço para a comicidade, e o terror dá lugar à sátira social, em que o ato de devorar corpos revela-se como uma extensão das ansiedades do cotidiano, dos dilemas familiares e das pressões por aparência e desempenho perfeitos. Diante disso, a série remidia o zumbi clássico, para atualizar seus significados, adaptando-o às dinâmicas da cultura de massa, onde até o horror precisa ser palatável, esteticamente agradável e, sobretudo, comercializável.
Dando continuidade à análise dos materiais promocionais de Santa Clarita Diet, no trailer oficial da série a música utilizada é a versão que a banda Cake fez para o clássico I Will Survive. A trilha funciona como um dispositivo semiótico central na construção do tom e da proposta estética da história. Ao resgatar uma letra que enaltece a superação e a autossuficiência, a produção da Netflix estabelece um jogo irônico com a condição de Sheila, que continua vivendo, mesmo após a morte. Dessa forma, a música que embala o trailer constitui um elemento de base para o mashup cultural, contribuindo para a cruzamento entre pop, humor e horror, de modo a confrontar, mais uma vez, os códigos tradicionais da representação zumbi. Como resultado, a série reconfigura os mortos-vivos. Se, antes, eles costumavam ser associados à decadência, à inaptidão e à inércia, agora eles são perfeitamente adaptáveis, reinventando-se a ponto de demonstrar expertise e vitalidade. Some-se a isso o fato de que I Will Survive, nessa nova versão, carrega um tom irônico, minimalista e distanciado, acentuando a estética da reinterpretação e do deslocamento, a exemplo dos cartazes de divulgação e da proposta da série. Afinal, no mundo contemporâneo, em que os territórios são compartilhados, a remediação conduzida por Victor Fresco celebra a lógica da hibridização, na qual as fronteiras entre vida e morte, normalidade e anomalia, colapso e reinvenção são sistematicamente borradas.
Já há algum tempo consolidada, a remidiação que neutraliza os traços de monstruosidade firmou-se como uma tendência nas últimas décadas. No caso dos vampiros, esse processo de humanização pode ser exemplificado, de forma resumida, por três marcos representativos: Conde Orlok, em Nosferatu (1922); Lestat de Lioncourt, no longa Entrevista com o Vampiro (1994); e Edward Cullen, na saga Crepúsculo (2008-2012). Da mesma forma, no universo dos zumbis, é possível tentar ilustrar essa trajetória — também sem qualquer pretensão de esgotá-la — a partir das criaturas de A Noite dos Mortos-Vivos (1968), passando pelo protagonista R., de Meu Namorado é um Zumbi (2013), até chegar a Sheila, de Santa Clarita Diet (2017).
Esse breve percurso na cultura audiovisual reflete um movimento contínuo de transformação em que essas criaturas deixam de ser uma ameaça externa para se tornarem agentes integrados e até protagonistas dentro do tecido social. Em Santa Clarita Diet, essa evolução se manifesta por meio do enredo, que adota a ótica dos zumbis, conferindo-lhes protagonismo e uma inserção funcional na sociedade contemporânea. Sheila, que trabalha como corretora de imóveis, exemplifica essa incorporação na qual o monstruoso e o cotidiano coexistem sem antagonismo aparente, revelando como a mídia contemporânea reformula as anteriores ao entrelaçar suas representações com os contextos sociais atuais. No que diz respeito a esse tema, “todas as mídias remediam o real”, resultando no fato de que toda remidiação “também pode ser entendida como um processo de reforma da realidade” (Jay Bolter e Richard Grusin 2000).
Na série, Sheila torna-se zumbi após consumir frutos do mar contaminados. Nesse momento, o fantástico é introduzido na obra, por meio dos sintomas que a personagem apresenta, até descobrir sua nova condição. Ela se sente estranha e diz que não está mais ouvindo seu coração bater (Santa Clarita Diet, 2017). Posteriormente, os estranhamentos atingem uma segunda fase, na qual Sheila tenta esconder seu estado do marido Joel (Timothy Olyphant) e da filha Abby (Liv Hewson). Finalmente, em uma terceira etapa, as estranhezas restringem-se aos momentos em que a protagonista (com ajuda e conhecimento da família) precisa matar seus desafetos para sobreviver. Aliás, nesse momento, ocorre mais uma descaracterização do zumbi tradicional, porque Sheila não age por instinto. Ela escolhe suas vítimas, tentando amenizar seus crimes, tentando justifica-los: ela precisa sobreviver e existem pessoas que lhe causam problemas. Evidentemente, na realidade essa lógica não se sustenta, mas, na série, ela revela o desprezo da personagem pela vida humana, principal marca do individualismo, ao mesmo tempo que constitui uma tentativa de eufemismo no modo de representar o zumbi.
Dessa forma, na série, o fantástico sofre um atenuamento, quando comparado a outras histórias de zumbis, e equivale ao “tempo de uma vacilação: vacilação comum ao leitor e ao personagem, que devem decidir se o que percebem provém ou não da ‘realidade’, tal como existe para a opinião corrente” (Tzvetan Todorov 1982, grifo no original). Em Santa Clarita diet, as dúvidas são sucessivas: como a própria protagonista vai lidar com o fato de ser uma zumbi; de que forma a família vai responder à novidade; e qual será a reação da vizinhança quanto às mudanças de comportamento de Sheila.
Essa diluição do fantástico é favorecida pela estrutura sequenciada e substitui o clímax pela “noção de episódios semiautônomos” (José Marques de Melo 1988). Trata-se do formato “teleológico” (Arlindo Machado 2003) e isso facilita também a transição do fantástico para o maravilhoso, já que os estranhamentos vão sendo aceitos, aos poucos, pelos personagens. Isso abrevia a surpresa e o questionamento, resultando “num universo de ficção total onde o verossímil se assimila ao inverossímil numa completa coerência narrativa, criando o que se poderia chamar de uma verossimilhança interna” (Selma Rodrigues 1988, grifo no original). Corroborando essa afirmação, Jacques Aumont aponta três categorias de verossimilhança: “O verossímil diz respeito, simultaneamente, à relação de um texto com a opinião comum, à sua relação com outros textos, mas também ao funcionamento interno da história que ele conta” (Jacques Aumont 1995).
Até mesmo o público reconhece essa coerência interna, compartilhando, a cada episódio, do dilema que envolve Sheila e Joel: ela deve transformá-lo em zumbi, tornando-o imortal? Esse tipo de dúvida é mais comum nos filmes de vampiro. No entanto, a série utiliza o recurso para consolidar o fato de que Sheila não representa uma ameaça a seus amigos e familiares. Consequentemente, eles não terão que matá-la. O marido e a filha são seus aliados, o que reconfigura por completo as narrativas clássicas de zumbis. Recusando-se a ser dominada pelo instinto, Sheila pensa em usar sua condição não para tirar a vida do marido, mas talvez para presenteá-lo com a eternidade.
Desse modo, nas cenas de violência, a família é sempre cúmplice ― antes, durante ou após o fato. Isso revela uma faceta significativa da sociedade contemporânea: a naturalização do insólito e a flexibilização dos limites morais dentro dos núcleos familiares. Embora, no início, Joel e Abby resistam, ambos acabam se acostumando com os respingos de sangue e os pedaços de corpos pela casa. A filha e o marido decidem priorizar a discrição e, acima de tudo, a sobrevivência de Sheila. Essa adaptação reflete, por analogia, a tolerância social a situações antes consideradas inaceitáveis, evidenciando a falta de sensibilidade crescente que integra a reconfiguração dos valores familiares em sua totalidade. Além disso, a adesão silenciosa da família frente à violência traz à tona a complexa negociação entre o desejo de preservação dos laços afetivos e a confrontação com a alteridade radical, um espelho das tensões contemporâneas entre individualismo e solidariedade. Assim, a série funciona como um comentário irônico sobre a capacidade de as famílias se ajustarem a realidades disruptivas, redefinindo a convivência cotidiana em todas as esferas.
Nesse contexto, conforme já mencionado, a estética trash instaura o horror de forma exemplar, na série, pois os recursos audiovisuais intensificam o efeito que as palavras podem apenas sugerir. Portanto, nessa produção as imagens se concretizam, aproximando o público da violência, a cada ataque. Praticamente em todos os episódios, o aspecto trash caracteriza-se pela quantidade de membros, vísceras e sangue — nas paredes, nos armários, na bancada da cozinha ou, ainda, no freezer e em caixas térmicas. Para completar esse panorama, algumas cenas ainda mostram Sheila comendo partes de suas vítimas ou enterrando corpos e provas de seus crimes (sempre com a ajuda do marido).
Por essas razões, o trash corresponde simultaneamente ao exagero das narrativas de horror e do próprio gótico, sobretudo no que se refere à categoria das “Conotações estilísticas” (Dani Cavallaro 2002). Comentando a utilização desse recurso, na literatura gótica e nas mídias audiovisuais, Aparecido Rossi afirma que o “horror não precisa mais do que uma boa descrição de jorros de sangue ou […] pedaços de corpos. […] justamente por essa facilidade em sua construção, o horror perde o sentido e se torna gratuito se não vier acompanhado ou sobreposto ao terror” (Aparecido Rossi 2014). Em Santa Clarita Diet, essa combinação é respeitada e se torna ainda mais complexa, porque a intensificação do terror pelo horror ocorre apenas no primeiro momento. Depois disso, o excesso dá lugar à comédia.
É justamente nesse ponto de inflexão, em que o excesso visual e sensorial do horror cede espaço à comicidade, que Santa Clarita Diet articula sua principal estratégia narrativa e estética. O grotesco, que inicialmente provoca repulsa, rapidamente é ressignificado em chave humorística, subvertendo tanto as expectativas do gênero quanto os limites tradicionais entre o perturbador e o risível. A carne dilacerada e os corpos desmembrados, em vez de levarem ao choque, tornam-se elementos recorrentes de uma rotina disfuncional para a sociedade como um todo, mas estranhamente funcional na história protagonizada por Sheila. Esse deslocamento de sentido acaba servindo de eufemismo para o impacto da violência, mas também revela a possibilidade de replicar esse processo com quase tudo, hoje em dia. Para isso, basta recorrer àquela estética fake e gourmetizada, tal como mencionado nos parágrafos anteriores.
Aprofundando o horror, na série, percebe-se a questão da alteridade, na história representada pela oposição entre iguais, sobretudo considerando que a aparência de Sheila não se altera, quando ela vira zumbi. Em essência, nessa produção o problema da individualidade é agravado, permitindo a retomada dos postulados de Zygmunt Bauman. Conforme esse teórico, a sociedade atual experimenta o fim das comunidades e o espaço de Santa Clarita, no seriado, representa isso, quando seus moradores começam a desaparecer, depois que Sheila se torna uma morta-viva. A rigor, a violência deve ser mantida fora da área comum, mas esse princípio é desrespeitado e a ação da protagonista zumbi, que é peça-chave nesse processo, acaba liberando “todas as dissensões, rivalidades, ciúme e querelas dentro da comunidade” (Zygmunt Bauman 2001). Sob essa perspectiva, o individualismo reinterpreta as relações interpessoais, somando-se às interferências das narrativas de horror, que “emergem em tempos de tensão social” (Noel Carroll 1990).
Seguindo essa configuração, a comunidade de Santa Clarita — que, não por acaso, leva o nome de uma cidade real da Califórnia — vive sob a ameaça de um inimigo sorrateiro e invisível: uma zumbi na forma de mulher. Assim como os zumbis transitam entre a vida e a morte, Santa Clarita funciona, na série, como um espaço que também flutua entre o real e o ficcional: uma cidade que existe no mapa, mas que é reinventada, em uma narrativa onde o cotidiano e o monstruoso se confundem. De modo cômico, os artifícios do ambiente urbano e de uma zumbi que não aparenta sua verdadeira condição representam a insegurança gerada pelo ataque às torres gêmeas, em 2001. De acordo com especialistas, esse ataque terrorista ocasionou a retomada dos mortos-vivos e do gótico, em pleno século XXI: “[…] o zumbi atinge proeminência inegável no mundo pós-11/09 para representar, de maneira avassaladora, as angústias tanto individuais quanto sociais” (Anderson Gomes 2014). Portanto, metaforicamente, os “zumbis representam as forças externas que ameaçam a sociedade” (Warren St. John 2006).
Ao longo dos séculos, a relação entre fantástico, gótico e terror tem possibilitado uma proximidade segura de monstros e catástrofes. Para Steven Bruhm: “Paradoxalmente, nós precisamos da consciência consistente da morte, proporcionada pelo Gótico, a fim de entendermos e desejarmos a vida” (Steven Bruhm 2002). Também focalizando essa polarização, Dani Cavallaro defende que o gótico “provoca medo extremo” para “encorajar a expulsão do objeto amedrontador” (Dani Cavallaro 2002). Dessa forma, em Santa Clarita Diet, embora Sheila represente uma violência sanguinária e a morte, trata-se de uma ficção que amplia a realidade exponencialmente, em uma simulação lúdica, cuja finalidade é transformar o desconhecido em algo já experimentado, por meio da arte.
A partir dessa dinâmica, o que Santa Clarita Diet encena vai além da conciliação entre o horror e o riso, porque implica a própria domesticação da catástrofe. Ao converter o colapso biológico em performance cômica e a necessidade de devorar corpos em uma questão de conveniência familiar, a série reposiciona a monstruosidade no espectro do ordinário, esvaziando-a de sua potência disruptiva e apresentando-a como variação gerenciável da vida contemporânea. Sintomaticamente, até mesmo a palavra “zumbi” é recusada dentro da diegese. Não se nomeia o que ameaça, não se convoca o signo daquilo que insiste em escapar da norma. Mais do que simular o desconhecido, sua engrenagem ficcional sugere a dessacralização do medo — não para anulá-lo, mas para incorporá-lo como linguagem e como instrumento de reinvenção do sentido, em um mundo onde o grotesco já não é exceção, mas sintoma.
REFERÊNCIAS
Aumont, Jacques et al. A Estética do Filme. Papirus, 1995.
Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida. Jorge Zahar, 2001.
Bolter, Jay David and Richard Grusin. Remediation: Understanding New Media. MIT P, 2000.
Bruhm, Steven. “The Contemporary Gothic: Why We Need It”. In: Hogle, Jerrold E. (Ed.). The Cambridge Companion to Gothic Fiction. Cambridge UP, 2002, pp. 259-276.
Carroll, Noel. The Philosophy of Horror or Paradoxes of the Heart. Routledge, 1990.
Cavallaro, Dani. Gothic Vision. Three Centuries of Horror, Terror and Fear. Continuum, 2002.
Gomes, Anderson Soares. “(De)Composições do Corpo Físico e Social: A Emergência do Zumbi na Ficção Norte-Americana Contemporânea”. Gragoatá, no. 35, 2014, pp. 97-116.
Machado, Arlindo. A Televisão Levada a Sério. SENAC, 2003.
Melo, José Marques de. As Telenovelas da Globo: Produção e Exportação. Summus, 1988.
Rodrigues, Selma Calasans. O Fantástico. Ática, 1988.
Rossi, Aparecido Donizete. “Manifestações e Configurações do Gótico nas Literaturas Inglesa e Norte-Americana: Um Panorama”. Ícone, v. 2, 2008, pp. 55-76.
Santa Clarita Diet. Direção de Victor Fresco. Estados Unidos da América: Kapital Entertainment, KatCo, Flower Films, Garfield Grove, Olybomb Entertainment; Netflix, 2017. 3 temporadas, son.
St. John, Warren. “Market for Zombies? It’s Undead (Aaahhh!)”. New York Times, 26 Mar. 2006, Web. Acessado 10 Abr. 2018.
Superinteressante. Zumbis: A Ciência, a História e a Cultura Pop por trás do Fenômeno. Abril, 2012.
Todorov, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. Perspectiva, 1982.
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Este texto é parte do artigo “De Memórias Póstumas de Brás Cubas a Santa Clarita Diet: zumbis, a cultura de massa e as revivescências do fantástico na literatura e na série de streaming”, publicado em dezembro de 2025, na revista FIAR — Forum for InterAmerican Research, mantida pela Bielefeld University, da Alemanha.



























