[wpdreams_ajaxsearchlite]
Anúncio

CARTOGRAFIA DOS GÊNEROS NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA

A noção de gênero deixou de delimitar contornos e passou a expandi-los. Um percurso por intermidialidade, adaptação e os novos gêneros digitais.
Mapa antigo das Américas, ilustração da coluna sobre cartografia dos gêneros na literatura contemporânea

Fonte da imagem: Wikimedia Commons

Tanto no contexto brasileiro quanto no internacional, a literatura vive um momento em que a noção de gênero, em vez de delimitar contornos, expande-os — fenômeno que motiva novas discussões sobre romance-reportagem, ready-made, multimodalidade e mídias digitais. Nessa matriz teórica, o gênero é entendido como forma relacional: uma energia que se reconfigura quando muda de suporte, de repertório cultural ou de comunidade leitora, como sugerem os estudos de Mikhail Bakhtin sobre heteroglossia e “novelização” (Bakhtin, 2010, p. 105). Aliás, a teoria bakhtiniana é frequentemente retomada por estudiosos da Linguística e da Literatura para acentuar a influência mútua e natural, em qualquer sociedade e em qualquer tempo. “Sejam quais forem as relações entre a literatura e os outros reinos valorativos, os livros são influenciados por outros livros; os livros imitam, caricaturam, transformam outros livros – e não apenas aqueles que lhe sucedem em estrita ordem cronológica” (Wellek; Warren, 2019, p. 294).

A pesquisa em Teoria Literária desloca-se, então, das essências para as bordas e é nesse limiar que alguns conceitos, como a intermidialidade, a adaptação como “repetição sem réplica” (Hutcheon, 2011, p. 25) e o recurso de “transmedia storytelling” (Jenkins, 2013), tornam-se chaves heurísticas. Nesse sentido, reconfiguram-se métodos, poéticas culturais e conexões, abrindo espaço para abordagens que vão do close reading ao mapeamento de processos de leitura em conformidade com suportes distintos. Dessa forma, as humanidades digitais dialogam com as políticas de representação.

Anúncio

Evidentemente, a pluralidade de objetos — a exemplo de feeds, quadrinhos, RPGs, diários e narrativas abissais — exige abordagens metodológicas diversas. Por essa razão, oposições e complementações se consolidam. Enquanto a Estética da Recepção desloca o foco da obra para o ato de leitura e ajuda a compreender, por exemplo, o engajamento comunitário em torno da instapoesia ou o pacto lúdico dos RPGs, as teorias de Suvin (1985;1988) e Csicsery-Ronay Júnior (2005), por sua vez, tratam a ficção científica como pensamento histórico sobre tecnologia e império. Já, em uma terceira vertente, o legado dadaísta de Tzara lembra que colagem e ready-made sempre carregaram um potencial de contestação estética e política. Essa confluência de matrizes revela o cerne da cartografia dos gêneros na literatura contemporânea. Afinal, não basta inventariar modelos e estruturas. É preciso mostrar como eles friccionam regimes de visibilidade e poder na cultura letrada, sobretudo na sociedade atual.

Nosso tempo é marcado pelas conexões e pelas misturas. Portanto, hoje em dia, argumentar que gêneros não fazem mais sentido é ignorar seu papel fundamental na constituição do sentido e na orientação da leitura. Gênero não é uma amarra. Trata-se de um mapa interpretativo, já que sua lógica permite que leitores e pesquisadoras reconheçam convenções compartilhadas — seja na estrutura de mistério, no pacto do romance epistolar ou nos elementos surpreendentes de uma ficção científica —, dando forma ao que se espera e ao que de fato se apresenta. Sem esses pontos de referência, cada texto chegaria sem lastro, deixando o leitor perdido em um mar de possibilidades, sem direção.

Anúncio

Isso se adensa ainda mais no panorama atual, marcado pela interação e pela literatura digital, que impulsionam uma avalanche de novos gêneros, da twitteratura ao cli-fi, cada qual respondendo às características de mídias e públicos específicos. No entanto, essa proliferação só reforça a importância do reconhecimento genérico: saber identificar se estamos diante de um instapoema, de um facenovel, ou de uma fanfiction é o que nos permite decifrar suas estratégias de efeito, suas formas de circulação e sua potência crítica — inclusive no que se refere às políticas de leitura. Para o teórico Kanavillil Rajagopalan, os períodos de globalização desencadeiam crises identitárias que se estendem para todas as áreas, incluindo a Linguística. Segundo ele, no contexto cibernético, por exemplo, isso decorre do “excesso de informações” e das relações instáveis e contraditórias que caracterizam “tanto a linguagem (…) como (…) os povos e as pessoas” (Rajagopalan, 2003, p. 59).

Além disso, nesta época de confluências, na qual os discursos se proliferem e convivem, entender os gêneros ajuda professores e pesquisadores a situar seus objetos em genealogias e sistemas culturais. Gêneros são muito mais do que espaços de contenção: são ferramentas para pensar convergências, fraturas e redefinições. Graças a eles, conseguimos discutir adaptações, hibridismos e reinvenções com profundidade, sabendo distinguir as continuidades formais das rupturas radicais. Portanto, longe de ser antiquado ou ultrapassado, o estudo dos gêneros hoje é necessário, pois nos permite reconhecer os contornos dos amálgamas que consumimos — abrindo caminho para uma crítica mais criteriosa e plenamente contextualizada.

Dessa forma, com o intuito de exaltar a pluralidade e a anulação das fronteiras, devemos nos ater a reflexões variadas, desde a textualidade nos ambientes digitais, passando pelas transmutações midiáticas e experimentações verbo-visuais, até chegar às revisitações do cânone. Evidentemente, o percurso não é linear e se apresenta como uma montagem daquilo que Bakhtin chamaria de vozes sociais da literatura. Isso permite que o feed de um instapoeta, por exemplo, ecoe no palco de um musical. Ou que o grito cósmico de Lovecraft encontre resposta no oceano de Aline Valek. Como se vê, descrever essa constelação de ideias e de análises já constitui, por si só, uma reflexão crítica, contribuindo sobremaneira para a consolidação do estatuto híbrido e movediço da literatura contemporânea.

Inclusive, diante dessa nova cartografia, convém lembrar que adaptação não é perda, mas, sim, redimensionamento, ou, como pontua Linda Hutcheon (2011), trata-se de uma repetição com variação. E as variações importam muito… Adentrando no território das poéticas experimentais, a performance associa corpo, gesto, prática processual e crítica. Além disso, desde a fotomontagem até o cut-up digital, a apropriação textual ganha nova urgência com a sobrecarga informacional e a IA generativa. Por fim, a écfrase, filiada à modalidade de intermidialidade reflexiva, passa a ser apresentada como texto autônomo e não mais como parte de uma construção maior. Nesse contexto, o eixo comum é a ideia de literatura como zona de montagem, em que palavra e imagem possibilitam releituras e tensionam sentidos.

Porém, há novidades que mantêm muitos pontos de contato com a tradição. Isso ocorre em romances que se disfarçam de ensaios filosóficos em que a palavra cede lugar ao silêncio como forma de pensar o ser. Ou em crônicas jornalísticas que se aproximam do romance de formação, borrando as fronteiras entre registro cotidiano e narrativa ficcional. O estranhamento e o terror também permanecem, provando que o gótico ainda serve tanto à crítica social quanto à produção do medo. Em suma, a cada retomada, revisitar o cânone é, antes de tudo, reinscrevê-lo.

Como se vê, a pluralidade de métodos e objetos de estudo confirma a reconfiguração dos gêneros na literatura — hoje e sempre. Quando Linda Hutcheon (2011) descreve a adaptação como processo e produto em diálogo com memórias culturais, reforça-se a ideia de que toda forma literária relaciona-se não apenas a um modo de leitura, mas também de escuta. De maneira análoga, as categorias que Irina Rajewsky (2005) estabelece, para tratar da intermedialidade, iluminam cada transposição, enquanto a noção bakhtiniana de heteroglossia convida a ver, em cada gênero, uma confluência de vozes e valores.

Diante disso, pode-se afirmar que tais conceitos não são abstrações. Pelo contrário, eles nos levam a descobertas, invenções e até mesmo nos ajudam a resolver problemas teóricos. Afinal, unindo a teoria à prática é possível, por exemplo, avaliar a pertinência e o alcance dos novos gêneros digitais, motivar a ressignificação dos testemunhos das minorias e compreender a persistência de temas e formas em diferentes contextos.

Essas contribuições, aliás, também renovam a discussão pedagógica. A instapoesia questiona currículos hierárquicos; o horror cósmico, lido na escola, convida à reflexão sobre alteridade e insignificância humana; a HQ redefine o público e a linguagem dos textos literários; e assim por diante. Pesquisar gêneros nos leva a pensar sobre quem lê, em quais plataformas, sob quais condições de poder — uma tarefa urgente, em um sistema de leitura marcado pelo scroll infinito e pela proliferação de algoritmos.

Na atual globalização, tudo está conectado — “fenômeno que vem sendo chamado de ‘transnacionalização’ (…). O outro lado dessa mesma moeda se chama ‘desterritorialização’” (Rajagopalan, 2003, p. 57). A partir disso, forjam-se novos tipos de associações, entre lugares, coisas, pessoas e discursos. No mundo contemporâneo, “as barreiras (…) estão desmoronando com rapidez impressionante” (p. 57), de modo que as dissensões e os atritos criam outras formas de expressão e de negociação, mais afeitas e adaptadas à complexidade desse sistema diverso e plural que experimentamos, já há algum tempo.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética. A teoria do romance. São Paulo, Hucitec, 2010.

CSICSERY-RONAY JÚNIOR, I. Science fiction. Criticism. In: SEED, D. (Ed.). A companion to science fiction. Oxford: Blackwell Publishing, 2005, p. 15-42.

HUTCHEON, L. Uma teoria da adaptação. Florianópolis: UFSC, 2011.

JENKINS, H. Transmedia 202: further reflections. Disponível em: http://henryjenkins.org/2011/08/defining_transmedia_further_re.html. Acesso em: 28 jul. 2013.

RAJAGOPALAN, K. Por uma linguística crítica. Linguagem, identidade e a questão ética. São Paulo: Parábola, 2003.

RAJEWSKY, I. Intermediality, intertextuality and remediation: a literary perspective on intermediality. Intermédialtés/intermedialities, n. 6, Montreal, 2005, p. 43-64.

SUVIN, D. Le metamorfosi della fantascienza. Bologna: Il Mulino, 1985.

_____. Positions and presuppositions in science fiction. Kent: Kent University Press, 1988.

WELLEK, R.; WARREN, A. Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários. São Paulo: Martins Fontes, 2019.


Versão atualizada do texto publicado na “Apresentação” da revista literária Scripta Alumni v. 28, n. 1, em julho de 2025.

0 0 votos
Classificacao do Artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

Giro Recorte Lírico

The Idol: Recapitulação e Análise do Novo Episódio | Dyanne Estava Tentando Assumir A Posição De Jocelyn?
12 jun

The Idol: Recapitulação e Análise do Novo Episódio | Dyanne Estava Tentando Assumir A Posição De Jocelyn?

No episódio anterior de "The Idol", conhecemos Jocelyn, uma estrela da música que estava tentando reviver sua carreira. Ela lidava

Elena Sabe: Final Explicado | Como Rita Realmente Morreu?
24 nov

Elena Sabe: Final Explicado | Como Rita Realmente Morreu?

Elena Sabe surge como um envolvente filme de drama misterioso argentino na Netflix, adaptado do romance de Claudia Pineiro. A

The Flash pode ser considerado um dos piores filmes do ano
16 jun

The Flash pode ser considerado um dos piores filmes do ano

Os filmes polêmicos e os filmes com artistas polêmicos não são novidade. O mundo do entretenimento muitas vezes lida com

Livros Curtos e Geniais pra Ler em 1 Dia (e Parecer Culto por Semanas)
10 abr

Livros Curtos e Geniais pra Ler em 1 Dia (e Parecer Culto por Semanas)

Você quer o prestígio intelectual, mas não tem tempo, foco ou paciência? Maravilha. É exatamente por isso que livros curtos

10 filmes de guerra quase perfeitos dos últimos 40 anos
24 maio

10 filmes de guerra quase perfeitos dos últimos 40 anos

Veja 10 filmes de guerra quase perfeitos dos últimos 40 anos e entenda por que eles seguem no topo da lista.

Amor Aqui e Agora: Episódio 10 Explicado | Desvendando as Complexidades da Jornada de Li-Wan
15 nov

Amor Aqui e Agora: Episódio 10 Explicado | Desvendando as Complexidades da Jornada de Li-Wan

O episódio final de 'Amor Aqui e Agora' revela a história de uma mulher determinada, imperturbável pelas expectativas sociais e

Posts Relacionados

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x