O canto do mar

O canto do mar

O que pode revelar uma caminhada matinal à beira-mar? É a pergunta que me faço, caminhando todas as manhãs, nesses dias em meu refúgio na Bahia, onde nos fixamos, minha mulher e eu, para cumprir o isolamento forçado, emoldurado pela paisagem marinha desta bela região do país.

Sem os atrativos tradicionais das típicas temporadas na praia, sem o ruído das aglomerações naturais das épocas de veraneio, o pensamento vagueia por imensidões distantes, em busca da compreensão das últimas coisas e dos segredos escondidos pelo mar.

O que busca o viajante? Entenderia a solidão impositiva da hora presente, o cumprimento de diretivas do Destino que assinala seus arranjos sazonais e anuncia alterações cíclicas profundas? São questões que o deambular pela praia traz ao viajante em busca da Sibila que o faça decifrar as profecias.

Esta caminhada à beira-mar fez evocar no cronista sentimentos antigos, antecipando presságios futuros, enquanto a Poesia vem insuflar o germe da imaginação criadora para entender os sinais do tempo presente. Afinal, como dizia Alberto Manguel, “todo leitor é um andarilho em descanso ou um viajante de retorno”.

Aos que residem à beira-mar, tudo pesa muito no bolso, diante dessa temporada de inverno com uma das mais baixa ocupações das casas de aluguel (e baixa ocupação dos hotéis e pousadas) da orla marítima.

Os guarda-sóis amuados a um canto de uma barraca de praia interditada ao uso denunciam, no entanto, que há mais do que perdas econômicas para os praianos e os outros. Eles choram à sua moda, por seus donos impedidos de exercer seu ofício de acolhida ao turista.

E o visitante, que vem de um lugar distante do mar, procura talvez por se afastar do temor e do tremor diário, em busca de sondar segredos mais recônditos nesta temporada, nesta estação de veraneio melancólico, em plena quarentena forçada pela ameaça global do coronavírus.

O temor à peste que domina o noticiário parece ser o ponto comum a todos, nativos ou forasteiros.

Para os que viajam, tudo é novidade, a começar pelo planejamento da viagem, os temores que antecipam o deslocamento. A viagem segue normas rígidas, sob condições especiais devido à crise sanitária, em que tomar um avião, esperar por escalas e tudo mais que respeita a chegar ao destino foi alterado para o bem comum.

Numa barraca interditada pela prefeitura, que fechou o comércio de praia, sou atraído por uma tabuleta que reproduz o Salmo 91, afixado em lugar de destaque à frente do quiosque fechado, dividindo a fachada com um anúncio de cerveja:

Não temerás os terrores da noite nem a flecha que voa de dia,
nem a peste que ande na escuridão, nem a praga que devasta ao meio dia.

De que suprema fraqueza, digo ao salmista, sofre este leitor andarilho, que mesmo em pleno dia, põe-se a tremer diante da peste que vagueia no escuro, incrédulo na proteção que vem do alto!

Num livro separado para viagem, encontra o cronista uma página reveladora, que ultrapassa os sinais que as pegadas na areia apenas anunciaram há pouco.

São versos do poeta Saint-John Perse, “Amers” no original francês, e que retomei por influência de um ensaio de René Girard sobre poesia e história.

Volto da caminhada e releio-o repetidas vezes, nesta página do longo poema com este título que serve como um trocadilho intraduzível, em homenagem ao mar.

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Bruno de Palma diz que “Amers[i] é um título que parece contradizer essa intenção de “poema do mar”. Ora, “amers” (em português, “marcas”) são sinais na terra, que servem de pontos de orientação para a navegação costeira. Sua referência ao mar é indireta: o nome desse poema não é “Mers”, como seria de esperar depois dos outros títulos de Perse (Vents, Oiseuax), mas “Amers”. O poeta trabalha com a polissemia da palavra, fazendo dela o centro de uma série de correspondências, pelo sentido e pelo som – explica Bruno.

Uma dessas correspondências é a aproximação entre amer (marca em terra – objeto terrestre conspícuo que serve de marca à navegação) e amer – amargo. O jogo se faz entre amers e amères, amargas, subentendendo-se águas, pois amargas e salgadas se equivalem, em oposição a águas doces; aquelas do mar, estas dos rios e lagos.

A outra correspondência é mais evidente, segundo Palma: “entre amers e mers”. Essa consonância, essencial para a compreensão do poema, é difícil de ser traduzida. Por isso, em inglês, forjou-se o termo seamarks, pois seria landmarks ou simplesmente marks. O tradutor alemão resolveu de forma semelhante. See-Marken; o tradutor para o italiano, Segnali di mare e seus tradutores para o espanhol, Señales de mar.

Saint John Perse - O canto do mar
(Saint-John Perse (1887 – 1975))

A poetisa e tradutora Dora Ferreira da Silva tem razão em dizer, na sua “Nota sobre ´Amers`”, aposta à sua tradução ao conato IX: “A tradução da palavra amers para o português exigiria a cunhagem de um novo vocábulo”. E sugere Amares, por ser, diz ela “mais simples e analógic(o) (como fonema e teor significativo).

E justifica: “Se essa solução apresenta a desvantagem de encobrir a importante conotação de ´marcas, limites, balizas` e, com ela, toda a referência à praia do tempo, finita e ´amarga`, por outro lado permite a explicitação da palavra ´amar`, só aflorada no título original (amers – aimer) e mantém a sugestão de ´estar diante dos mares´ (amares).”

Sem embargo, cremos que é preciso levar em conta o significado técnico do termo, porque essencial para a compreensão do poema.

Os `amers´, sem perder sua função precípua, utilitária, passam na transposição poética, a desempenhar o papel de elementos de ligação, ou, melhor, de mediação, entre o homem e o Mar: para o homem, incitado pelo Mar a sobrexceder a tudo o que o limita ou diminui enquanto homem, eles são pontos de referência que o impedem de perder-se de si mesmo; para o Mar, são cavilhas que o ligam à terra e o fazem próximo e propício, aberto a essa aliança que o Poeta lhe propõe através do Poema.

Marcas Marinhas, justifica o frei Bruno, foi a forma preferida, pois nela “se percebe melhor a conexão dos dois eixos fundamentais do poema: marcas, simbolizando a terra, sua vida, carências e anseios, e marinhas, o mar, símbolo do Ser, ou para Saint-John Perse, do `divino´”. O trecho citado ficou assim na tradução do frei Bruno Palma:

Poesia para acompanhar a marcha de uma recitação em honra do Mar.
Poesia para assistir o canto de uma marcha pelo contorno do Mar.
Como a empresa da volta em torno do altar e a gravitação do coro no circuito da estrofe.

E é um canto de mar como não foi jamais cantado, e é o Mar em nós que o cantará:
O Mar, em nós trazido, até a saciedade do sopro e a peroração do sopro,
O Mar, em nós trazendo seu ruído sedoso do largo e todo o seu grande frescor de boa ventura pelo mundo.

Poesia para aplacar a febre de uma vigília no périplo do mar.
Poesia para melhor viver nossa vigília na delícia do mar.
E é um sonho no mar como não foi jamais sonhado, e é o Mar em nós, tecendo suas grandes horas de luz e suas grande pistas de treva —

Todo licença, todo nascença e todo resipiscência, o Mar! o Mar! em seu afluxo de mar,
Na afluência de suas bolhas e na sapiência infusa do seu leite, ah! na ebulição sagrada de suas vogais — santas filhas! as santas filhas! –
O Mar ele próprio todo espuma, como Sibila em flor sobre sua cadeira de ferro…”

Bruno Palma nos esclarece que a figura do Mar no poema de Perse é a imagem do Ser”, sendo, ao mesmo tempo, “Sabedoria” e “desrazão”, “medida e desmedida”, “ordem e demência”, “veracidade e mentira”, assim por diante.

Sibila, na mitologia greco-romana, era o nome dado a uma profetisa possuída por um deus (Apolo) e o nome daquela que profetizava em nome dele era Pítia, que se apresentava sentada sobre o trípode (a “cadeira de ferro” dos versos de Perse).

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(The Last Judgment. 1570 – Marten de Vos)

A enciclopédia nos ensina que O Canto da Sibila é um auto litúrgico baseado numa composição de canto gregoriano de origem medieval, pertencente ao tempo do Natal, outrora muito conhecido no sul da Europa mas que atualmente só sobrevive na tradição dos Países Catalães.

O canto da Sibila é tradição que até Santo Agostinho recorreu, ligando a figura da profetiza à de Nossa Senhora, representando uma profecia da “Sibila” que descreve o Fim dos Tempos, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final. Entoado em catalão desde o século XIII, o canto tem sua autoria atribuída a Eusébio de Cesareia, um bispo do século IV, e a tradução para o latim a Santo Agostinho. O tema é uma profecia sobre o regresso do Messias e o fim do mundo.

Cabe citar que a Sibila Eritreia foi tema do pintor Michelângelo de Buonarroti (1509) e ornamenta a Capela Sistina, no Vaticano. Se as perguntas não cessam, o cronista quer encerrar este texto expressando aquela sensação que Frei Bruno de Palma indica em seus comentários ao poema de Perse, que é símile ao que sente ao final da caminhada com a Poesia. Sim, pode a poesia, quando nos vemos diante dos encantos do Mar, dos ventos, da Natureza, enfim, nos revelar mais que uma mera caminhada poderia supor.

Basta que o leitor a ela se entregue, deixando-se dominar pelo poder da imaginação poética, ou como nos diz Palma, neste poema realiza-se a  integração do mar, do poeta e do poema, numa celebração do homem que celebra e do ato mesmo de celebrar, ou dizendo de outro modo, em nome da vida, em celebração à poesia.


[i] PERSE, Saint-John. Amers/Marcas marinhas. Tradução, cronologia, introdução e notas de Bruno de Palma. Cotia (SP), Ateliê Editorial, 2003, pág.27 et passim.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

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