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O verão da infância e o imaginário que frustra

O Brasil é habitado em maior densidade em torno do litoral, negócio aprendido desde a época de escola. Esse estabelecimento territorial não é por acaso.

O Brasil é habitado em maior densidade em torno do litoral, negócio aprendido desde a época de escola. Esse estabelecimento territorial não é por acaso. Inúmeros são os fatores que explicam. Atento a um deles, tão sutil quanto real, que é o do imaginário do prazer social: as férias de verão das classes medias e baixas da sociedade.

Ir à praia e degustar a sensação de plenitude na infância e beira da adolescência faz com que seja entranhado o espírito de possível felicidade a ser conquistada na vida adulta. A espera ansiosa pelos finais de semana de tempo livre em casa, na praça ou na casa dos primos, na rua ou em algum pequeno passeio ou evento durante o ano letivo se transforma em êxtase nas semanas de férias de meio e final de ano. Obras da cultura pop como o filme Conta Comigo (1986), Caçadores de Emoção (1991), American Pie 2 (2001),      Quatro Amigas e Um Jeans Viajante (2005), Muita Calma Nessa Hora (2010) e Como Se Fosse A Primeira Vez (2004) contribuem para o imaginário de que o verão é a época do ano de um viver jovem e intenso.

O verão da infância e o imaginário que frustra

A vida adulta chega. Não há verão em casa de praia com amigos curtindo sem tantas preocupações com contas, apenas os questionamentos sobre a existência. Talvez esteja aí um dos pontos: a juventude pode se preocupar com o existir, o adulto não. Ao invés de se preocupar com o trânsito, com a alergia da criança, com a fatura do cartão ou com o projeto atrasado no trabalho, a taxa de juros e o desemprego, o jovem pode se preocupar com o que realmente gosta, com que tipo de prazer ou desprazer irá lidar, com a sexualidade, com os afetos e desafetos. Isso sob um corpo exigido e mais desvalorizado que um corpo adulto sob pleno efeito da poesia do tempo.

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Além de tudo, viver essas experiencias transforma o saudosismo em sensação resgatável através da compra da casa de praia, do aluguel de temporada ou idas em algum feriado prolongado para balneários cada vez mais numerosos do litoral brasileiro. É o momento que bate mais uma grande frustração. Nem todos podem reviver a experiencia, mesmo que através da vida dos filhos e sobrinhos, de uma juventude despreocupada na praia ou na piscina sob o sol de verão. Seja por falta de recursos, por questões de saúde ou realismo tardio de que essas memórias não voltam, a frustração rebate a voz empolgada do radialista que finge sempre estar na praia. O imaginário do litoral em férias é isso, imaginário.


Essa é a receita eficaz para frustração de cada ser que não conquista uma possibilidade assalariada real de viver na beira da praia ou em finais de semana realmente satisfatórios em casas de praia com a família. Ao que restam escapes pontuais como filmes, séries e livros onde a viagem é permitida e ser o que se quiser ser é não apenas possível como também recomendável. E vem de um livro um trecho iluminado. Do ‘Tradutor de Chuvas’, de Mia Couto, subscrevo. ‘Com sapiência de congênito bebedor João Joãoquinho murmurava: a vida é uma varanda’. Completo que é uma varanda de casa de praia.

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Em um país com a maior parte da população olhando em direção ao Oceano Atlântico, nada mais natural que esse imaginário de veraneio também ser o que acompanha a vida até o fim. Contudo, como tudo na vida, é possível olhar ao redor, além, através, viver infinitamente mais que as férias de verão.


Como não só de verão vive o homem, que tal se ligar nessa nova crônica da coluna “Crônicas do Território”:

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