Pessoas livres são muito ofensivas

Pessoas livres são muito ofensivas

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em livro publicado em 1872, ‘O Nascimento da Tragédia’, denominou duas categorias opostas de criatividade e beleza nos seres humanos: o apolíneo e o dionisíaco. Ambos com referências à mitologia grega. O primeiro, de Apolo, o deus das artes, da música, da verdade e da perfeição. O segundo, de Dionísio, deus do vinho, das festas e da loucura. Nietzsche denominou como apolíneo aquele artista da racionalidade, sereno, e como dionisíaco aqueles artistas emocionais e instintivos. Em teoria, uma alma presa e uma alma livre.

A princípio, Nietzsche afirmou que nenhuma arte é puramente apolínea ou dionisíaca. São nuances de uma mesma pessoa. O que, por este fato, leva a crer que ambas são personalidades livres. Dar-se ao luxo de ser sereno em um mundo caótico é uma tremenda liberdade, assim como encarar a loucura assumida também é. Ao experimentarem a calmaria de ficar em casa, assistir um filme, seguir uma linha equilibrada, as pessoas desse tipo de comportamento incomodam quem não aceita que se pare em tempos de correria. Os chamados desajustados, que bebem, laçam a vida como se fosse animal arisco, também incomodam. Mas a quem? A qualquer um. Pessoas livres são muito ofensivas.

A existência de uma pessoa livre ofende profundamente aqueles que vivem em suas prisões. Entende-se como prisões contemporâneas algumas situações: não pode estar solteiro; não pode viver sozinho; não pode não querer sair no sábado à noite; não pode não ter filhos; não pode ir sozinho ao cinema; não pode não querer dar o número de telefone; não pode querer ser apenas amigo de uma mulher atraente; não pode ser simpática; não pode ter a ambição de uma vida simples; não pode ser monogâmico; não pode ter sexualidade livre; não pode não gostar de chocolate; não pode ser inquieto; não pode questionar comportamentos enraizados; não pode fugir do padrão. Ora, não pode nada que alguém logo reclama.

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Toda ovelha é chamada de negra por ser diferente da maioria. A princípio é algo que realmente incomoda. São pessoas distantes que cutucam, mas também próximas as que apontam dedos. “Você deveria casar-se”, dizem. “Você deveria ser mais magro”, dizem. “Você deveria parar de filosofar”, dizem também. Chamam de filosofar, na comum ideia de papo de bar, o que é sintoma de evolução. Olhando para a estrada, nada na humanidade melhorou porque as pessoas ficaram quietas. Nada evoluiu através de aceitação da ordem vigente. Muito pelo contrário. Ora apolíneo, ora dionisíaco, como artista que sou, indico a liberdade. Alguns sentenciam: nossa, ele está completamente perdido. Outros respondem: nossa, eu estou cada vez mais completamente livre.


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Thiago Kuerques

Thiago Kuerques

Thiago Kuerques, iguaçuano, é contista, cronista e romancista tendo publicado O Cara Que Não Publicava Livros (2012), Ensaio dos Poemas Pelados (2013), Território (2017), A Balada do Esquecido (2018) e Tordesilhas (2019). Atua como jornalista no Site da Baixada. Em 2017 venceu o Prêmio Baixada na categoria Literatura. É professor de literatura em formação pela UFF. Realiza oficinas de escrita criativa, microcontos e palestras literárias para jovens e adultos.

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