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Sigrid Renaux: Ecocrítica e os Ecos do Mundo

Para tentar alcançar o objetivo da consciência ecológica, as artes desempenham um papel fundamental. Em razão disso, variando o grau de intensidade, muitos poemas de

Para tentar alcançar o objetivo da consciência ecológica, as artes desempenham um papel fundamental. Em razão disso, variando o grau de intensidade, muitos poemas de Sigrid Renaux vão além do protagonismo botânico e promovem a união da fauna e da flora, ainda sem destacar o humano: “asas-pétalas / brancas negras / a mariposa revela suas flores / adormecidas” (RENAUX, 2019, p. 22). Da antítese, as cores branca e preta passam a compor a mesma imagem descrita, e o mesmo verso.

Aliás, essa ideia de complementaridade surge desde o início, quando as asas da mariposa (inseto da ordem Lepdoptera) são comparadas a pétalas, consolidando a simbiose entre os reinos animal e vegetal. Essa junção torna-se mais complexa, nos versos das linhas acima, pelo uso da linguagem poética. No entanto, a similaridade mostrada no poema reflete cenas do cotidiano, em que mariposas ou borboletas misturam-se às plantas (Fig. 1):

Sigrid Renaux: Ecocrítica e os Ecos do Mundo
Figura 1: Borboleta Malaquita (Siproeta stelenes) sobre as Marrequinhas (Salvinia biloba) de um lago. (Foto: Leonir Kobs/Reprodução)

Seguindo o mesmo processo combinatório, mas, dessa vez, reunindo duas espécies distintas da fauna, uma ligada à água e a outra ao ar, pode ser citado o seguinte exemplo: “conchas / borboletas do mar / pousadas na praia” (RENAUX, 2019, p. 96). De um modo ou de outro, os dois textos exaltam a colaboração, tal como mencionou Oliver Sacks, em seu artigo “Darwin e o significado das flores: “As flores de magnólia […] ficavam cobertas de […] besouros minúsculos. […] as mais antigas das plantas floríferas […] precisavam contar com um inseto mais antigo, um besouro, para a sua polinização” (SACKS, 2009). Na vida diária, em uma observação mais atenta, podem-se ver cenas semelhantes, como esta (Fig. 2):

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Figura 2: Libélula (Anisoptera) em Flor de Arnica (Arnica montana)
(Foto: Leonir Kobs/Reprodução)

Aprofundando essa ideia de integração, que dinamiza o ciclo da vida, o autor Oliver Sacks complementa:

Em 1837, no primeiro de muitos cadernos de notas […], Darwin esboçou o desenho de uma árvore da vida. Sua forma muito ramificada, tão arquetípica e poderosa, refletia o equilíbrio entre evolução e extinção. Darwin sempre enfatizou a continuidade da vida, o quanto todos os seres vivos descendem de um ancestral comum e como, nesse sentido, somos todos ligados por parentesco. Desse modo, os seres humanos não estão ligados só aos macacos e aos outros animais, mas também às plantas. (As plantas e os animais, sabemos hoje, têm 70% do DNA em comum.) (SACKS, 2009, grifo nosso)

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“Patrulha Canina, Patrulha Canina, nós estaremos prontos!”

Nessa passagem, Oliver Sacks retoma os estudos de Darwin sobre a origem das espécies não apenas para enfatizar a necessidade da integração, mas também para igualar o homem às plantas e aos animais. Comentando sobre a constante associação que seus poemas fazem, entre os reinos vegetal e animal, a autora Sigrid Renaux afirma que seu objetivo é “[…] mostrar como na natureza tudo é importante: uma folha caída lembra a asa de um pássaro, pássaro que por sua vez já pousou entre as folhas de  árvores, acentuando a união entre os reinos animal e vegetal” (RENAUX, 2022).

Essa explicação tomou como base estes versos: “pássaro de outono / a folha alçou voo / enrubescida” (RENAUX, 2019, p. 54), nos quais se mantêm várias características analisadas neste artigo. Pássaro e folha protagonizam uma cena sazonal, que possibilita o cromatismo, marcado pelo adjetivo “enrubescida” e justificado pelo substantivo “outono”. No entanto, o mais importante é a atitude contemplativa da autora, que se reflete no fato de enxergar vida em uma folha que já se desprendeu da árvore, mas que, mesmo assim, ainda consegue alçar voo, tornando-se pássaro. Isso remete ao ciclo da vida, lembrando os leitores de que o mundo é um ecossistema.

Em suma, a escrita poética de Sigrid Renaux mostra a necessidade e a função da descentralização, sugerindo uma sociedade caracterizada pela integração ecológica. Consequentemente, a autora propõe a focalização da natureza circundante, em detrimento das personagens humanas. Essa estratégia não apenas inverte a concepção hegemônica sobre as relações entre os seres vivos no mundo, mas também se adapta à síntese e à rapidez, correlação que caracteriza a sociedade contemporânea.

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Com esse intuito, os versos de Sigrid Renaux exploram a forma e o conteúdo comuns nos haicais. Ao passo que muitos poemas da autora realçam o kigo, conferindo certa materialidade às cenas descritas na composição poética, sobretudo pela ótica peculiar e pela potência imagética da linguagem utilizada, os textos sugerem uma estrutura diferenciada, dissociada do haicai mais tradicional. Isso significa que, formalmente, o número de versos e de sílabas poéticas varia. Porém, mais importante do que essa distinção é o fato de a literatura de Sigrid Renaux associar a filosofia dos haicais às questões da sociedade atual.

Indo além da identificação e do reconhecimento do mundo como sistema, Sigrid Renaux considera a natureza sua principal matéria-prima literária: “Como meus poemas são fruto de inspiração e a natureza é minha fonte principal, a associação entre literatura e ecologia surgiu naturalmente” (RENAUX, 2022). Nesse sentido, alguns poemas da autora ressaltam a ideia de que a qualidade da expressão artística está intrinsecamente ligada ao conhecimento e à valorização das plantas e dos animais: “para construir um poema / procuro a palavra plena / entre as canções dos pássaros / e o silêncio colorido das flores” (RENAUX, 2011, s.p.) (Fig. 3).

Figura 3: Sabiá-ferreiro (Turdus subalaris) cantando no galho de uma Araucária (Araucaria angustifolia). (Foto: Leonir Kobs/Reprodução)

Os versos que encerraram o parágrafo anterior, além de possuírem claro caráter metalinguístico, fazem uso da sinestesia, recurso que associa sentidos diferentes, como é demonstrado na expressão “o silêncio colorido das flores”. Dessa forma, o cruzamento dos aspectos auditivo e visual faz com que a união dos reinos animal e vegetal seja naturalmente reforçada. 

Ao privilegiar o ambiente, com ênfase especial às plantas, a escritora investe simultaneamente nos aspectos ecfrástico e ecomimético de seus poemas. Sem dúvida, esse duplo destaque consolida sua proposta de dar vez e voz à flora e aos pássaros, para que as pessoas sejam capazes de se conectar ao mundo de outra maneira, mais colaborativa e com um olhar mais atento a todos que fazem parte dele.


Excerto do artigo “Versos florais de Sigrid Renaux”, de Verônica Daniel Kobs, publicado na Revista Cerrados (UnB), v. 31, n. 60, dez. 2022, p. 103-113.

REFERÊNCIAS:

RENAUX, Sigrid. De sons e silêncios. Ponta Grossa: Toda Palavra, 2011.

RENAUX, Sigrid. Luzes na selva. Curitiba: Appris, 2019.

RENAUX, Sigrid. [Sem título]. Comunicação via e-mail entre Sigrid Renaux e a autora deste artigo, no período de 11 a 15 fev. 2022.

SACKS, Oliver. Darwin e o significado das flores. Jan. 2009. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/materia/darwin-e-o-significado-das-flores/>. Acesso em: 28 mar. 2022.

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