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LEIA-ME SE FOR CAPAZ: A LITERATURA EM CÓDIGO

Verônica Daniel Kobs Combinando tecnologia digital, narrativas literárias sintéticas e ludicidade, os QR contos mostram outra possibilidade de inserção da literatura no ciberespaço. Segundo Vanessa

LEIA-ME SE FOR CAPAZ: A LITERATURA EM CÓDIGO

Verônica Daniel Kobs

LEIA-ME SE FOR CAPAZ: A LITERATURA EM CÓDIGO 1
Fonte da imagem: https://blog.fabricadeaplicativos.com.br/aprender/leitura-de-qr-code/

Combinando tecnologia digital, narrativas literárias sintéticas e ludicidade, os QR contos mostram outra possibilidade de inserção da literatura no ciberespaço. Segundo Vanessa Cardozo Brandão, “[…] mesmo sendo o texto o objeto primário do agenciamento literário, no tempo da comunicação digital e seus fluxos midiáticos, ele pode sair de seu lugar canônico de mídia literária — o livro” (Brandão, 2019, p. 74). Utilizando o QR code Quick Response Code (ou Código de Resposta Rápida) —, que surgiu na indústria automobilística japonesa, em 1994, como sucessor do código de barras, os QR contos usam o código como principal elemento, em detrimento da palavra. Esse artifício, de caráter lúdico, torna o miniconto invisível, no primeiro momento. Funciona assim: o leitor depara-se com um QR code e precisa usar aparelhos e aplicativos adequados para tentar desvendá-lo. Dessa forma, o texto literário resume-se a um código, em um claro convite ao jogo e à conectividade. Com base nessa particularidade, os QR contos dão grande “visibilidade à transição das narrativas”, já que a passagem da página impressa para a tela do computador implica um cruzamento com “suportes diferenciados” (Silva; Rodrigues, 2013, p. 81).

As vantagens do uso do QR code são inúmeras. A primeira delas é dar liberdade ao leitor, adotando o mesmo procedimento das notas de rodapé e dos hiperlinks. Além disso, quando é usado como elemento composicional do texto, esse tipo de código institui a intertextualidade e, por vezes, a intermidialidade. Seguindo uma tendência mais lúdica, o QR code pode permitir que o leitor acesse um conteúdo que é periférico. Nesse sentido, podem ser citados os códigos que apresentam uma trilha sonora desenvolvida especificamente para embalar a leitura de determinada história.

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 No que diz respeito a informações de caráter mais informativo do que artístico, o QR code pode garantir o acesso de alguns leitores a conteúdos extras, que, na concepção de Henry Jenkins, constroem a transmidialidade, ao conectar o público a múltiplas plataformas, com o intuito de expandir a narrativa e proporcionar o “entretenimento 360º” (Jenkins, 2013, p. 189). Nessa mesma vertente, o código pode conectar o leitor com os chamados peritextos, definidos por Gerárd Genette (2009) como materiais que tratam do texto literário e que se dedicam ao aspecto crítico/analítico.

Contudo, hoje em dia o QR code deixou de desempenhar um papel secundário e assumiu lugar de destaque, tornando-se o próprio texto. Assim são os QR contos compilados por Carlos Seabra e divulgados em duas plataformas distintas: o Pinterest (https://br.pinterest.com/cseabra/qr-contos/) e o Tumblr  (https://qrcontos-blog.tumblr.com/). Intensificando os princípios da Estética da Recepção, os QR contos tornam a literatura invisível, fazendo com que ela só seja revelada, se o leitor cumprir à risca as regras do jogo. Ao se apresentar como um enigma para o leitor, o miniconto codificado pode ser relacionado a uma das quatro categorias de jogo que Wolfgang Iser atribui à literatura, a Alea. De acordo com o teórico alemão, essa modalidade lúdica institui “a desfamiliarização, que é alcançada pela […] subversão da semântica familiar”, frustrando “as expectativas guiadas pela convenção do leitor” (Iser, 2002, p. 113). Isso coincide com a literatura ergódica, pois a escolha de codificar o texto literário, escondendo-o do leitor e chamando-o para a busca, impõe desafios e estabelece novos padrões — de autoria, de texto e de leitura.

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Entretanto, para participar desse jogo, o leitor deve ter acesso à Internet, por meio de um computador ou smartphone. Dessa forma, tal como ocorre com o hipertexto, não há “limitação do interlocutor, que pode ser qualquer pessoa desde que conectada à rede, já que o hipertexto não constitui um texto realizado concretamente, mas apenas uma virtualidade” (Koch, 2007, p. 35). No caso das coletâneas organizadas por Seabra, isso é levado às últimas consequências, porque o código deixa de servir como intermediário do impresso ao digital. Em vez disso, a virtualidade torna-se plena, anulando o suporte físico. Como resultado, o QR code, que antes atuava como ponte, estabelecendo uma “conexão entre o conteúdo físico […] e o conteúdo virtual (da web), de modo a ancorar uma relação dinâmica” (Silva; Rodrigues, 2013, p. 79), agora é apresentado em um novo circuito, que anula a mídia impressa. Se existe alguma vantagem nessa exclusão, sem dúvida ela está associada ao armazenamento de dados e à acessibilidade, já que um QR conto pode ser facilmente enviado a qualquer pessoa, além de poder ser disponibilizado em diferentes plataformas on-line.

Depois de ter chegado ao Brasil, em 2016, hoje, com menos de dez anos de história, o QR code cruzou fronteiras, garantindo espaço em materiais impressos (incluindo folders e cupons fiscais), outdoors, placas, fachadas de prédios, bem como telas de TV, computador, smartphone e canais de streaming. O código está relacionado a todo tipo de conteúdo ou serviço. É possível codificar textos verbais, fotos, URLs, sons, localizações do Google Maps… Além disso, os QR codes podem ser criados e decodificados por qualquer pessoa com conexão à Internet e acesso aos aplicativos adequados. Você, leitor, também pode gerar um QR code agora mesmo, neste site: https://www.invertexto.com/gerador-qr-code. Inclusive, a conclusão deste texto foi codificada com o auxílio dessa ferramenta. Então, aponte a câmera de seu celular para o QR code que vem a seguir e boa leitura.

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QR code gerado pela autora com recursos do aplicativo Invertexto.com.*

#Referências

BRANDÃO, V. C. Do Facebook para o livro: redes sociais digitais como espaço para a escrita (poética) do cotidiano. In: ARBEX, M.; VIEIRA, M. de P.; DINIZ, T. F. N.(Orgs.). Escrita, som, imagem: perspectivas contemporâneas. Belo Horizonte: Fino Traço, 2019. p. 63-82.

GENETTE, G. Paratextos editoriais. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

ISER, W. O jogo do texto. In: LIMA, L. C. (Org.). A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 105-118.

JENKINS, H. Cultura da convergência.São Paulo: Aleph, 2013.

KOCH, I. G. V. Hipertexto e construção do sentido. Alfa, São Paulo, v. 51, n. 1, p.23-38, 2007.

SEABRA, C. (Org.).QR contos.Coleção de Carlos Seabra. Disponível em: <https://br.pinterest.com/cseabra/qr-contos/> e <https://qrcontos-blog.tumblr.com/>. Acesso em: 22 mar. 2024.

SILVA, F. F. da; RODRIGUES, A. A. Interações analógico-digitais móveis na mídia impressa: camadas informacionais na narrativa com QR code, Aurasma e realidade aumentada. Rizoma, Santa Cruz do Sul, v. 1, n. 1, p. 71-84, jul. 2013.

* Caso você não tenha conseguido fazer a leitura do QR code, acesse o link: https://drive.google.com/file/d/1Kt8ZkP66aKk6k5t_EF_rrdX0g7Pl0wqp/view?usp=sharing

—————————

Este texto integra o capítulo “Textos mínimos, múltiplos e incomuns”, escrito por Verônica Daniel Kobs e publicado no livro Leituras intermidiáticas e intermidialidades narrativas. Organizada por Cristiane de Mattos, Maria C. Ribas e Thaïs Diniz, a coletânea foi lançada em 2024, com o selo da Editora Pontes. 

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