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A FUNÇÃO DO TELEFONE NA CRIAÇÃO DO VIDEOTEXTO

Verônica Daniel Kobs Ao contrário do que se pensa o videotexto não foi desenvolvido a partir da TV. O teórico Júlio Plaza comenta a criação

A FUNÇÃO DO TELEFONE NA CRIAÇÃO DO VIDEOTEXTO

Verônica Daniel Kobs

Ao contrário do que se pensa o videotexto não foi desenvolvido a partir da TV. O teórico Júlio Plaza comenta a criação dessa mídiae explica que esse sistema “opera regularmente (desde o dia 15/12/82) na cidade de São Paulo, sob os cuidados da Telesp” (Plaza, 1983). Isso mesmo. Embora a imagem e a tela sejam facilmente relacionadas ao aspecto televisivo, o telefone foi essencial para as transmissões e para o acesso à informação.

A evolução do videotexto deu origem à Internet e, de acordo com o mesmo autor, isso possibilitou a veiculação de conteúdos on-line, em forma de notícias, clipes, videopoemas, entre outros:

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O videotexto acompanha […] a tendência do mundo contemporâneo no referente às relações entre a quantidade e complexidade de meios de tecnologia: multimedia,isto é, a tendência de sintetizar e criar relações de interpenetração desses meios (intermedia), conseguindo, por isso mesmo, outros meios e tecnologias híbridas […]. (Plaza, 1983)

Segundo notícia resgatada pelo jornalista José Wille, no ano de 1984, outras capitais brasileiras, como Curitiba, começaram a testar o sistema de videotexto, o qual inicialmente funcionava em redes pequenas de algumas empresas e possibilitava a recuperação de informações, por meio de comandos em um teclado (Fig. 1).  

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Figura 1: Videotexto (versão utilizada em 1985, no Brasil). Disponível em: https://www.megacurioso.com.br

Dessa forma, era possível pesquisar os assuntos, desde que o usuário cumprisse dois requisitos: o pagamento de uma mensalidade e a compra de um adaptador que conectava a linha telefônica à TV (Fig. 2).

Figura 2: Videotexto disponibilizado pela TELERJ, em 1987. Disponível em: https://acervo.oifuturo.org.br

Anos depois, porém, a Internet ampliou o caráter híbrido do videotexto, de modo que os resultados das buscas podiam ser visualizados na tela do monitor do próprio computador (JWS Comunicação, 1984).

Seguindo essa mesma tendência, torna-se bastante salutar o fato de, hoje, alguns artistas adotarem o formato videográfico, híbrido por natureza e, por essa razão, adequado à convergência do ciberespaço e das hipermídias. Por meio da combinação de som, imagem e movimento, destacando a espacialidade da tela e os elementos que a preenchem, os vídeos on-line enaltecem a síntese e a rapidez do novo milênio. Corroborando essa ideia, Arlindo Machado cita três categorias de artistas que frequentemente utilizam os recursos do vídeo (especificamente o videoclipe, muito utilizado no mundo da música):

Esquematicamente podemos considerar três grandes grupos realizadores de videoclipes. […]. [O terceiro] é aquele que encara o clipe como uma forma audiovisual plena e autossuficiente, capaz de dar uma resposta mais moderna à busca secular de uma perfeita síntese da imagem e do som. (Machado, 2003, p. 182)

Essa síntese que caracteriza os clipes e também os videopoemas é outro ponto de contato com o videotexto, pois este “cria uma interface com o leitor, que o obriga a um pensamento redutivo-esquemático e a uma percepção rápida e espontânea” (Plaza, 1983, grifo no original). O mesmo vale para a Internet, já que essa surgiu a partir do videotexto. Em suma, a hibridização passa a ser o aspecto fundamental da síntese, a fim de que os produtos artísticos e os meios de acesso tentem corresponder à multiplicidade e à rapidez, pois, de acordo com Italo Calvino (1998), nos anos 1990 essas qualidades já se insinuavam como definidoras do processo de comunicação que vigoraria no novo milênio.

Outro fator fundamental diz respeito ao que Júlio Plaza afirma sobre a origem do videotexto (e, consequentemente, da Internet): “[…] o videotexto, diferentemente de todos os meios de comunicação de massa, é interativo, pois […] nasce de um meio interpessoal: o telefone” (Plaza, 1983, grifo nosso). De fato, voltando às duas últimas décadas do século passado, no Brasil, constata-se essa filiação, já que a Internet, em seus primórdios, dependia da linha telefônica para possibilitar o que ficou conhecido como acesso discado. Diante disso, os vídeos on-line, acessíveis por meio de uma hipermídia em rede, ou seja, com acesso à Internet, dão continuidade ao sistema fundado pelo videotexto: “Pela intermediação das redes de telecomunicação, o videotexto põe em relação pessoas equipadas com terminais, completando os serviços telefônicos tradicionais com os computadores” (Plaza, 1983).

Ao longo de décadas, a web desenvolveu os modos de acesso e compartilhamento, até instituir de forma definitiva o que se chama “computação ou colaboração em nuvem” (Rojo, 2012, p. 26), já que atualmente não é preciso ter um provedor e um computador ou smartphone. O acesso, as postagens e o envio de arquivos podem ser feitos de qualquer lugar, por meio do armazenamento virtual e do compartilhamento de hipermídias e de redes.

REFERÊNCIAS

CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

JWS COMUNICAÇÃO. Em 1984 aparecia o videotexto, que foi o “avô” da Internet. Portal Memória Brasileira, São Paulo, 1984. Disponível em: https://jws.com.br/2022/05/1984-a-telepar-anuncia-a-chegada-do-videotexto/. Acesso em: 22 nov. 2022.

MACHADO, A. A televisão levada a sério.São Paulo: SENAC, 2003.

PLAZA, J. Sobre videotexto (vtx). Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, 1983. Disponível em:

https://monoskop.org/images/0/0d/Plaza_Julio_1983_Sobre_videotexto_VTX_Arte_e_videotexto.pdf. Acesso em: 14 jun. 2017.

ROJO, R. Pedagogia dos multiletramentos: diversidade cultural e de linguagens na escola. In: _____; MOURA, E. (orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. p. 11-32.

————————————-

Excerto do artigo “Transmidialidade e reescrita criativa em Algo antigo, de Arnaldo Antunes”, publicado na revista Soletras (UERJ), n. 46, 2023, p. 53-77.

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