Cavaleiros do Céu

Um menino que do alto de uma goiabeira que havia em frente à casa de tia Luzia, cantava uma música. Eu a ouvi mais tarde numa gravação do Milton Nascimento, com o título em português de “Cavaleiros do céu”. Agora, só consigo lembrar-me do menino repetindo o refrão: Y-pi-a-ê, Y-pi-a-ô… As primeiras lembranças motivam as […]
O Poderoso Grão de Mostarda

Já houve quem designasse a adolescência como o campo de provas necessário a toda a vida humana. Ao sair da infância, eu cruzei a rua e adentrei o campo de eucaliptos em frente ao orfanato, rumo a um destino que à época me parecia nebuloso, embora pleno de esperanças. Senti às vésperas da adolescência a […]
Jorge Luis Borges: Em busca de secretas modalidades do Ser

André Maurois afirmou em seu último livro que, tendo sido leitor toda uma vida, quando “velho tirava das leituras as mesmas alegrias que na adolescência, e essa felicidade se torna mais viva se posso, no espaço de um artigo, dizer aos leitores, jovens e velhos, que me distinguem com sua amizade, os motivos de minhas […]
Diário do extremo oriente: O começo da jornada

Tóquio, 22 de dezembro de 2022 – Viajo só e calado em respeito ao notável silêncio e à quietude dos outros viajantes nipônicos dentro do trem da JR (o que é um hábito bem japonês), sigo o percurso da estação de Ryoguku-Sumida, onde estou morando, para a de Ueno, para uma visita ao Museu Nacional […]
Natal antigo em Portugal

Lembranças de um Natal antigo me transportam a uma crônica das “Farpas escolhidas[i]”, do velho lusitano Ramalho Ortigão (1836-1915), que se autointitulava pai-avô. Eis-me, pois, diante de “O Natal Minhoto”. Começo tentando estabelecer comparações entre o espírito natalino da Lisboa do início do século XX com o da minha amada Goiânia nesta segunda década do […]
Exaustão literária (1)

A esta altura do ano, quando eu era mais jovem, tinha quase fechada minha lista de livros lidos e aqueles que permaneciam em processo de leitura. Eu me sentia pronto a emitir juízo de valor sobre todos. Hoje, apesar de continuar amando a leitura e, talvez, até mesmo lendo com mais atenção e cuidado que […]
Japão à vista

“Como é complicado redigir — é mais árduo do que jejuar por três dias” – afirma o narrador de “Botchan”, romance de Natsume Soseki. E sempre penso isso quando desejo me manter ativo neste meu ofício de cronista da Recorte Lírico, a revista digital mais lida no Sul do país. Penso que não é porque […]
Marra Signoreli: um poeta do “underground estético”

(A iluminação das dançarinas de Leucoteia) Tomemos o título para compreender que Signoreli conhece o enredo que está musicando. Falamos do canto V, da Odisseia, de Homero, por sinal texto de uma das epígrafes do livro: “Leucoteia, afamada pelos pés sedutores […] recebia agora honras de deusa marinha.” – transcrito pelo autor conforme à […]
A escada de Jacó, de Ney Teles de Paula

É sempre raro encontrar artigos em um site de abrangência nacional, como este, sobre um escritor que atua regionalmente, mas não me contive em dar publicidade a esta matéria, originalmente publicada na Revista da Academia Goiana de Letras, edição nº. 35, de dezembro de 2020, movido sobretudo pela qualidade do escritor aqui abordado. O leitor […]
Paul Celan – a grande poesia trágica (1)

O grande crítico judeu-francês George Steiner (1929-2020), morto no ano passado, em Cambridge (Inglaterra), contou a Ramin Jahanbegloo ter perdido o trem na estação Frankfurt por ter ido comprar um livro num quiosque. Ele leu, então, o verso: “A língua está ao norte do futuro” – e concluiu: “perdi meu trem por causa deste […]
Crônicas de viagem (3)

Stabiuzzo, Vêneto, Primavera de 2019 – Neste pequeno escritório de um apartamento alugado em Stabiuzzo, pequena comunidade desta região, comprovo a legenda do poeta francês Henri Michaux – “poetas amam viagens”. Se o início da viagem foi motivado pela curiosidade em torno dos rastros de James Joyce, que me levou a Trieste, a continuação do […]
Crônicas de viagem (2)

Trieste – Primavera, 2019. O poeta francês Henri Michaux afirmou que “os poetas amam viagens”. A lembrança que motiva esta crônica é antiga, marca a viagem a Trieste que realizei em 2019, perseguindo os rastros do escritor irlandês James Joyce. Na primavera nebulosa de Trieste, o sol se põe tarde, por volta das 20h30. Havia […]
[Wladimir Saldanha] Um facho de luz em meio à névoa
![[Wladimir Saldanha] Um facho de luz em meio à névoa 16](https://recortelirico.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Wladimir-Saldanha.jpg)
O poeta baiano Wladimir Saldanha em seu novo livro — “Modos de romper a névoa” (Crítica) — lança nova luz ao ambiente poético de nosso tempo no Brasil. A crítica de poesia brasileira contemporânea se estende a autores que compreenderam o que o poeta-crítico intitulou de “underground estético“, conceito tomado de empréstimo ao último Harold […]
Crônicas de viagem (1)

Esta e as demais crônicas de viagem que comporão a série do Adalberto De Queiroz no Velho Continente datam em um período antes da pandemia que se instaurou no mundo. Divirtam-se! Trieste, 29 de abril, 2019 – O sol se põe tarde em Trieste nesta primavera nebulosa e fria. Para os nativos, tudo parece ameno, […]
Gaiola sem paisagem

Do fundo da infância, as memórias brotam e o cronista une o passado ao presente poeticamente
Cultura literária medieval (3)

Ainda na minha cruzada pela boa informação sobre a Idade Média, tenho sobre a mesa outro livro do consagrado medievalista brasileiro de saudosa memória – o professor Segismundo Spina, meu mestre na viagem que refaço, e para a qual convido novamente o benévolo leitor a me seguir, sempre alertando que é preciso encontrar guias seguros […]
Cultura literária medieval (2)

A literatura medieval difere da literatura da Antiguidade Clássica e se afirma no cânone ocidental com obras como Tristão e Isolda. A partir da poesia provençal, surgiram obras que chegam aos tempos atuais gerando forte interesse dos leitores
Cultura literária medieval

Eis-nos, benévolo leitor, diante de um novo ano, renovando as esperanças e planejando escrever novas histórias. Eis-nos, diante do deus Jano (Ianus), a divindade romana das portas, das passagens, dos princípios, fechamentos e transições. Já estivemos aqui. Curvemos novamente a fronte diante da figura do mito latino que foi associada por Santo Agostinho às portas […]
Uma inspiração messiânica

Há mais de dois mil anos, quando o poeta latino Virgílio escreveu sua obra “Bucólicas[i]”, especialmente a IV Écloga, seus versos se tornaram o primeiro anúncio da encarnação de Jesus Cristo. Desde Santo Agostinho, essa parte do longo poema se transformou em profecia poética do nascimento de Jesus, uma inspiração messiânica composta pelo poeta 40 […]
Algumas notas sobre Pushkin (parte 3 – final)

Devo iniciar esta crônica com um pedido de desculpas ao leitor, pois subestimei o tempo que levaria para gerar esta série de três artigos sobre o escritor Alexandr Pushkin, considerado um dos pais da moderna literatura russa. A esta altura, devo registrar meu reconhecimento ao trabalho da tradutora e pesquisadora Denise Bottmann[i], que salvou o […]
Sobre poesia e poetas

Leitor benévolo, eis-me pronto a uma confissão: não me foi possível concluir a prometida terceira parte do estudo que venho fazendo da obra do poeta russo Alexandr Pushkin. Então, eis-me aqui voltando os olhares para a Poesia brasileira. – As coisas, na verdade, pioraram para a publicação de livros de poesia e sobretudo para poetas […]
Algumas notas sobre Pushkin (parte 2)

Leia a primeira parte das “notas sobre Pushkin” clicando aqui Na primeira crônica desta série, procurei situar o leitor sobre a vida do poeta russo Alexandr Pushkin e o meio em que escreveu. Negro, viveu entre eslavos, descendente de escravo africano viveu dentre a nobreza russa, nobre por direito e nobre de coração, Pushkin se […]
Algumas notas sobre Pushkin (1)

Ele nasceu há mais de duzentos e vinte anos, morreu em duelo aos 38, negro num país eslavo, Alexandr Serguéevich Pushkin era de estirpe nobre, por via de um bisavô descendente de um príncipe da Abissínia e também por parte do pai, o major da guarda Sergueievich Pushkin, cuja ascendência remonta ao século XII, vindo […]
Uma arte profética (Dostoiévski)

Muitas vezes, quando lemos Dostoiévski, principalmente quando mais jovens e menos experientes como leitores, sentimos uma espécie de estranhamento diante de um personagem, de uma situação romanesca. No meu caso, muitas vezes senti um certo mal-estar que me forçava a afastar o livro e pensar muito sobre a cena. Que Dostoiévski tenha inundado seus romances […]
Charme e humor no ensaio

Eis-nos, leitores, diante de um ensaísta de charme, para usar a expressão de Alexandre Soares Silva na apresentação deste “Saudades dos cigarros que nunca fumarei”. Nele, Gustavo Nogy reabilita uma escrita que prova que “nem tudo precisa ser grave na vida”, dando razões para se rir e pensar a um só tempo. Tento nesta crônica […]
A leitura e o bem-estar da alma

Em “A biblioteca à noite”, o argentino Alberto Manguel transcreve trecho de uma carta do cônsul romano Cícero que, por volta do ano 36 a.C., escrevia ao amigo Ático, sentado em seu estúdio à beira-mar em Antium. “Eu me divirto com os livros, dos quais tenho boa provisão em Antium, ou conto as ondas – […]
O canto do mar

O que pode revelar uma caminhada matinal à beira-mar? É a pergunta que me faço, caminhando todas as manhãs, nesses dias em meu refúgio na Bahia, onde nos fixamos, minha mulher e eu, para cumprir o isolamento forçado, emoldurado pela paisagem marinha desta bela região do país. Sem os atrativos tradicionais das típicas temporadas na […]
Poetas em tempo de penúria [Érico Nogueira]
![Poetas em tempo de penúria [Érico Nogueira] 32](https://recortelirico.com.br/wp-content/uploads/2020/07/erico-nogueira.jpg)
O jovem poeta, tradutor e professor de Letras Érico Nogueira[i] atesta com sua escrita o que o crítico Carlos Felipe Moisés dissera no posfácio a “O livro de Scardanelli”: “Érico é talvez um dos indícios mais fortes de que a moderna poesia brasileira vive hoje um momento crucial, de alta criatividade, a demonstrar a evidência […]
O silêncio do poeta

Há 177 anos, em junho de 1843, da torre em que vive, o poeta Hölderlin contempla as águas do rio Neckar e a paisagem verde que se oferece a ser decifrada há 36 anos. É de favor que vive o poeta, alvo da generosidade de um de seus leitores – o marceneiro Zimmer que se […]
Contemplando formas eternas

Como um aprendiz de xadrez que estuda com disciplina os movimentos do jogo, leio Filosofia porque amo ler, sem saber com exatidão qual o meu próximo movimento, e por isso mesmo não alimento a pretensão de entrar em disputa com um oponente real, mas também não abdico de conviver com um adversário imaginário – eu, […]
Um poema à consciência

Três palavras[i] sobre a folha do caderno de notas me alertam que daí há outras mais que podem brotar através do exercício da meditação: vontade, entendimento, memória. Anotadas à véspera do sono estão aí para significar algo, para ter (ou ganhar) sentido – exigem um despertar ou uma vigia na vigília para que se tornem […]
Machado e a plasticidade do clássico

Tenho sobre a mesa o belo livro “Machado de Assis: Contos (quase) esquecidos”, organizado pelo professor João Cezar de Castro Rocha[i], 2ª. ed., pela editora Filocalia, do grupo editorial É Realizações, de São Paulo, com 440 páginas bem ilustradas num notável projeto gráfico de Maurício Nisi Gonçalves (Nine Design). O livro conta ainda com dois […]
Notas sobre a civilização do espetáculo (2)

Encerrei minha crônica anterior com uma afirmação e uma pergunta: a civilização criou uma miríade de coisas. “Por que você prefere a civilização à selvageria?” Essa multiplicidade de coisas e feitos é que devia fundamentar uma resposta esmagadora, e que às vezes se torna a resposta impossível – por que prefiro a civilização à selvageria, […]
Notas sobre a civilização do espetáculo (1)

A incessante busca por respostas filosóficas e sociais, notas sobre a civilização do espetáculo, do Beto, questiona o nascimento e os meandros da composição civilizatória.
Senha para acessar o sofrimento

Um livro de 1600 e outro de nossa época se juntam para servir como senha que dá acesso ao sofrimento e a mais humanidade do crítico e do leitor
Sob o império do medo

O meu último artigo se inicia com uma pergunta nada retórica, pois a fizera a mim mesmo, diante da página à espera do artigo quinzenal. “Será o fim dos tempos? –Será o apocalipse agora? E agora, volto a perguntar: estaremos “cantando o medo, que esteriliza os abraços”? – como no famoso verso de Drummond? Uma […]
